O barrigudin...

Ele era um barrigudin...
Desses, que peleia puraí mó de ajeitá um rabo de calango que lhe sirva como argo de cumê...
Sustança... que lhe mate a fome.
E si arrastano na secura da terra vremeia e chorano enxuto, ele vai, percurano os calango.
A seca é pur dimais.
E já levô as água pu céu e de lá ela num vortô mais.
Nem anunviô. Invaporô. Foi-se.
E já levô gado, dexano as caracaça, custela só incuberta de coro.
E prantação já levô, tingindo o verde de marron seco..
Levô as isperança do povo.
E du povo vai levano as gente, anssim, anssim, lentamente.
Levô anssim, di home i muié... anssim.
Levô.
E dexô no desamparo da onfandade as criança do cafundó e tomên o barrigudin do choro inxuto.
E largô ele lá, dibaxo do carro boi, marrado nas carcaça seca, disminingüida.
Lá, donde há sombra só no sol a pino.
I di lá o barrriguin do chorô inxuto, viu lá, em dois dia, pai e mãe atrofiá inté esgotá e dispois esbugaiá os óio e morrê!
Quanu levaro os dois na rede, mó dinterrá, disseru lá pru barrigudin qui eles agora tava mió.
Qui foru pru céu.
I o barrigudin creditô.
Limpô da cara a puera do choro e si pois a avuá, mó dincontrá o céu e pidí bença do pai, bejo da mãe e um surriso prus dois.
I vuô inté incontrá o céu.... Inté incontrá o céu. Inté incontrá o céu....
inté percebê as ranhura seca da árvore desabando co peso do seu corpo e espaiano puera quando se arrebentô no chão.
E u menino chorô sua lagrima de vapô e olhô pru sol e dele resolveru si apossá. Mai o sol lhe virô as costa e deu uma vorta i meia in redó di si e dispencô frô murcha i morta tômen na sequidão.
Quando a noite deitô os braço na terra, traveis o barrigudin levantô mó di avuá e catá as istrela.
Qual o quê!
Ispinhô as mão nos cacto, us único verde a se atreve rompe u chão.
Tonce, u barrigudin arresorveu vortá pra terra e largá esse negóço de avuá.
E posô nu nada.
Num nada, infinitamente seco.
E quente.
E morto.
O barrrigudin então sentô-se e vortô a chora seu choro inxuto.
E ta lá.
Sentado isperano qui a seca lhi devorva o direito di avuá.
* adaptação livre para a realidade tupiniquim de um fragmento de Woytzeck do autor alemão Büchner, morto aos 23 anos quando trabalhava na elaboração dessa obra.
Postado por Nelson Natalino em março 22, 2007 08:11 PM