
Hoje resolvi escrever.
Não sei se permitirá, mas não vejo saída:
A escrita seria fala em silêncio?
Precisaria eu fazer dessa invasão uma inversão?
Tantos são os tormentos presentes em sua falta.
Que seja então conhecida a que dor em mim escondia:
Senhor,
estou cansada. É claro, porque a certa altura há que estar-se cansado.
Um supremíssimo cansaço.
Não. Cansaço por quê? Começo a conhecer-me. Não existo.
Meu Deus, que fiz eu da vida? Tenho vontade de chorar, tenho vontade de chorar muito, de repente, de dentro.
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Aquele peso em mim - meu coração.
A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias.
Aqui, neste misérrimo desterro onde nem desterrada estou, habito, fiel, sem que queira, àquele antigo erro pelo qual fui proscrita.
São dias só de febre na cabeça, não faço mais que, perdida, olhar o tempo, perdido pela ausência súbita.
Inês de Castro compreender-me-ia.
Tenho pois que escrever a vosso espaço, na esperança de alcançar o que se me foi tirado.
Não vos peço de volta.Não hei merecido ter-vos, Senhor.
Indulgência vos peço para o meu degredo, a escrever estas linhas, mimeticamente, qual plagiária de uma dor que antes já houvera sentido, mas não pensara eu que viria golpe tão rude e cruento, célere, cedo demais.
Desterro, 15 setembro 1669 às 11 horas da noite.
* * *
FEBRE
Se o que sinto não é febre , não sei como é que se tem febre e não sei como se a sente.
O fato essencial é que estou doente. Doente e fraca.
Sinto a chamar por mim as águas a que muito temo.
Chamamento confuso de águas não éditas, implícitas, de coisas do mar que é o espelho dos náufragos.
Toma-me o delírio das coisas marítimas, das viagens longínquas, das travessias perigosas.
Ah, seja como for, naufrago na única coisa que hei tido na vida: as palavras.
E' com elas que saio da existência segura e cálida que imaginara ter no vosso coração e pensamento.
Eis que se vosso pensar já não me aprisiona: abstrata se me torna a vida e aguça em mim a querença do fugir, do partir .
Desterro, 16 setembro 1669 às 2:22 horas da manhã
***
Ir para Longe.
Fugir para Distância.
Indefinidamente, pelas noites misteriosas do esquecimento de mim , pelos poentes fundos levada, pelo perigo do vosso esquecer-me. Inexistentemente levada e largada como a poeira, pelos ventos , pelos feros vendavais.
Senhor, se não me retendes em Ti , só me resta ir, ir , ir.
Largar por aí a fora, pelas ondas do perigo, pequenininha que sou, ir-me indo de vez. O mar sem fim é brasileiro, maranhense, goiano ou paraense ou português. Ó mar salgado , quanto de teu sal são lágrimas de Portugal.
A falta de meu Senhor, oh couta de mim...
Abandono, 18 setembro 1669 à 1 hora da madrugada.
* * *
Ó minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação!
Trago o Senhor dentro de meu coração, como num cofre que se não pode fechar de tam cheio que está, que está de vós, da vossa voz, vosso canto.
Meu coração vagabundo quer guardar todos os lugares em que já estive, o Egito não resplandecente porque lá não houvera estado o meu Senhor por sobre o meu umbigo.
Meu coração é um al-mirante louco que abandonou a profissão.
Enlouqueceu-se-me a memória.
Derramo infidelidade a mim mesma por lembrança à qualquer dita que me haveis dado.
Uma dita transitória que sonhei ter quando hei sido criança.
Tenho a cabeça na loucura .
Graças a Deus, que doida estou no abandono que me há dado o meu Senhor.
Há quanto tempo havemo-nos deixado?
Sequer a hora que eu não era mais vossa pertença , nem essa me pertence.
Se me haveis deixado abandonada e a desoras, abre-me o sonho para a loucura a tenebrosa porta.
Abandono, 25 setembro 1669 – 9 horas da manhã.
***
Pereço.
Pois que a treva do não vos ter não é menos negra que essa luz de escuridão em que me sou quedada.
Vejo o passar do Araguaia das duas vezes por ano, do meu Amo. Vejo .
Vejo passar os barcos pelo mar, há velas, velais Senhor?
As velas como asas do que vejo trazem-me um vago e íntimo desejo de ser quem fui , saber quando o fui e quando haveis me retirado o dom de ter sido vossa...
Quanto me dói, não o não vos ter, mas o não terdes a mim.
De quem são os fortes braços que se afrouxaram ante o meu roçar?
De quem as quilhas que vejo e ouço, e as sinto em mim.
Abandono, 2 de outubro, 3 horas da madrugada.
***
Há saudade em minhas pernas e em meus braços.
Há saudade no cérebro por dentro e por fora há.
Há grandes raivas feitas de cansaço.
Há quanto tempo, meu Senhor, desde o início do eterno, que estavamos separados. Há quanto tempo.... horror, não nos ouvimos mais.
Eu sempre gostei de ver o vosso sono.
De colocar o Senhor, meu amo e minino para a entrega do sossego.
Não importa que a mim não venha o sono. Vivo pelos olhos da vigília e não posso deixar de me confranger com a vinda de um novo dia que me traz o mesmo dia sem vós, meu Senhor,
Abandono, 5 de outubro, 1 hora da manhã.
* * *
Vã vigília.
Quisera entregar a vós o meu silêncio de ouro, que retém a minha dor.
Aqui, muda , silente, sem nada que já me atraia, sem nada que desejar, farei meu sonho, muda e contente, terei meu Senhor, fecharei minha vida e nunca mais terei agonia, pois dormirei de seguida.
Só no silêncio cercado pelo som branco de um ser que já não se é, de um ser que nunca foi seu, tocado pelo ar, sem fragrância, da brisa de qualquer céu.
Vaga no azul amplo solta, vai uma nuvem sem nuvem errando sem volta.
DEGREDO
O meu Senhor não me volta.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.
Passou a nuvem da nuvem. O sol volta.
A alegria girassolou.
É brando o dia, brando o vento.
Assim fosse o meu pensamento.
Assim fosse eu, assim eu fosse.
Tenho esperança?
Não tenho.
Tenho vontade de a ter? Não sei.
Ignoro a que venho, quero dormir e esquecer.
A natureza nunca se recorda e por isso é bela.
Torno ao chão; e rogo a indulgência vossa para estes desvairados devaneios, que é como se alto pensasse, não eu, mas outra pessoa.
Daqui deste desterro meu vos envio meu ínvio pensar.
Tendo-vos livrado de acerbas arestas,
indulgência mais pede, se se desmedir a dor, as dores, os males da ausência., que não parecem o vosso coração tocar...
Sinceríssimamente,
A vossa não mais vossa,
Desterro, um dia qualquer em hora nenhuma.
Muito bem escrito, e muito triste, também...
Posted by: Lou em janeiro 26, 2007 10:08 PMLindo, Nelson. Devo minha entrada no Blog de Papel à generosidade da Meg e nunca vou poder pagar isso. Fui alvo, muitas e muitas vezes, de sua generosidade e de sua doçura. E é isso, e só isso que importa. Um beijo querido.
Posted by: Fal em janeiro 27, 2007 08:57 PMMuito obrigado!
Bem haja pela sua generosidade.
Abraço forte