Eu olhei o que seria o horizonte.
Erguia-se frontalmente, esguio edifício. Mortalmente ele se erguia e me olhava com seus mil olhos fumê.
Me provocava e sorria com escárnio, prometendo engolir-me um dia. Digerir-me, como a um contr-filé mal passado.
Eu olhei o chão.
Cuspí.
Cuspí o progresso. O meu, inclusive.
O monstro negro inda me olhava, sereno e impassível.
Notei-lhe os umbrais.
Vomitava homens notórios.
Engolia notáveis senhoritas, qual rito mágico de oferenda a um Deus Inca.
Eu, parado na outra margem do rio de gente, com o meu pragmatismo idiota.
Quixote séculos avante.
Sem armas.
Sem poderes.
Desisti da luta.
Por que só eu notei?
Talvez porque eu queria apenas olhar o horizonte...
© by Nelson Natalino - 2003
~Confidências de um João de Barro -1988~
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Penso...
Será que foi ontem,
será hoje o dia, foi há algumas horas
ou nunca aconteceu?
Será futuro, será pretérito,
imperfeito como eu,
ou nunca será, como nunca fui eu?
Bastará olhar para a frente
ou estrá escondido lá atrás
numa parte qualquer de ontem
ou numa surpresa amanhã?
Tudo uma mera questão de relatividade,
pois tudo isso, quem sabe seja,
um punhado de nada
que se esvai por entre os dedos
qual areia de ampulheta
acumulando tempos
que nunca irão existir.
© by Nelson Natalino - Julho 2003
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O temportência
Passortência, passa
Não temportância, Hortência, tem não
O tempo
É largortência, é distância
Temportância o temportência, tem não
Hortência, Hortência, tem não
Sou cativortência,
Tiranortência, sou
Loucortência,
Teu passadortência
Teu temportência, teu
Passado,
Presente,
(teu)
Tempo
Distância
Sou
eu
© by Nelson Natalino
~Confidências de um João de Barro -1988~
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Como Cora,
Corola Coralina
Quero rima, quero rosa
Rosetando,
relva nua,
rosto brisa,
brasa ardente,
quentes lábios,
labirintos, vários lados
Lá dos confins
Quero Cora, corola, Carolina
Como quero
quero roda
qual ciranda,
qual crisantemo
gosto triste, traz lembanças
dos seus lábios
labaredas várias faces,
faceiro amor...
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~Confidências de um João de Barro -1988~
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Há cores tão secretas, definidas
E dores inefáveis, tão sofridas
Carícias e promessas, descabidas
Pudores e palavras tão perdidas
Se cabe, não se sabe, das feridas
Se há morte, gente há, desvalida
Se há norte, não se pode, dar guarida
Se há flor, haja amor,
Seja vida.
© by Nelson Natalino - Junho 2003
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Uma luz?
Um sinal?
ou apenas uma estrela
distante e solitária
que o céu de São Paulo engoliu
não parece mais aqui,
que se toca estrela com a ponta dos dedos
enxame azul
noite
sombras
São Paulo de sexo e promessas
hoje parece que até a garoa se nega a enfeitá-la, cinzenta de prédios
de homens e mulheres em fila indiana de solidão
Tédio
Ruas nuas
Nada e tudo
Requinte da ceia de talheres de prata
O requente da marmita tramontina da preta
Esperança e distância
cama de papelão
um cobertor de notícias
sangrentas
doidas
mortas
e as ruas tortas
contam segredos extremos
de beijos
de fumo
de pico
pouca coisa da cidade vazia
vazia de amor
mas cheia de esperança
num amanhã melhor
melhor só um pouco
Não é, meu caro João de Maria?
© by Nelson Natalino - 2003
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Cristal, translúcido cristal
Absorver forças,
enigmas, dógmas
Primaveras pudicas
Cristalino, lúcido animal
Expurgar mortes,
crisantemos, guerras,
cantadores únicos, puros
Cristalizável mágico irreal
Abater homens
Litígios, signos
antagônicos lírios
fúrias, calmarias
Critalográfico mundo banal
recolher armas
melódicos dramas
faraônicos projetos.
Gulas, garagalhos,
penas.
© by Nelson Natalino - Setembro 2003
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dedicado ao amigo Dennis do Caderno Mágico
© by Nelson Natalino - Julho 2003
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-Tá manero, mano?
-Na maior, bródi, qué dá um tapa?
-Quê nada, preciso dum cano
Cê faz a presença, meu chapa?
- Só. Mas tem que me dá uma pedra
-Manero, vô logo guentá uns otário,
pode esperá que eu num faio
num fujo, nem pego os ataio.
-Falado, eu fico aqui cherando uma cola,
-Me dá o cano eu vô logo imbóra
-Cuidado cos hóme lá fora
Tão cheio de razão pra matá
Num ligo, tomêm sei atirá
Tô na rua largado e sem dó
Posso robá, posso matá
Num vão mi prendê, mano
eu sô di menó.
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© by Nelson Natalino - Outubro 2003
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© by Nelson Natalino - 1988
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Thiago, teu nome tem som de amigo
Nas tuas amazônicas palavras eu me perco em brasís irreais
Quisera crer na mansidão desses igarapés que fluem dos teus cantos
Quisera poetar realidades, nesses teus sonhos de amar as estrelas,
e carregar nos ombros esperanças de terras onde nasçam homens do verde.
Cativos, porém profundamente irmãos.
Que pisem na terra e da terra tirem o seu pão, quisera.
Quisera ter e poetar caboclos que me ensinassem o caminho dos ventos,
ou mesmo o recado escrito pelas nuvens, ou mesmo as leis da escuridão,
ou repartir com as crianças o sal da minha mesa em meio aos indios Maué,
na aldeia Molungotuba, quisera.
Quisera poetar carapanãs,
mas nunca fui mordido por um carapanã, caralho!
Quisera aprender nessa tua cartilha, soletrar a lição de ser irmão
Quisera realmente poetar você, iremão poeta das amazonas,
que quanto mais te leio, mais te sinto amigo, irmão amazonense,
pois nas tuas caboclas palavras, és o canto dos pássaros,
o mormaço da floresta, o grito dos índios, o cultivo, a pesca,
o verde da selva, o tronco da árvore, o cheiro da terra.
Nos teus cantos de desespero por uma vida melhor,
és a lição humana da liberdade, a força da verdade,
a luz da justiça, o sonho da paz, o som da canção,
a voz reprimida do povo a se levantar.
Tens jeito de bandeira desfraldada,
pendão da esperança.
Tens jeito do que Deus imaginou ser gente.
Jeito de irmão.
No fundo do peito.
Lá dentro do coração,
tens jeito de poesia comprometida com a nossa vida.
O jeito de quem sabe ensinar que é preciso fazer alguma coisa pelo homem.
( a lição que mais me esforço pra aprender contigo)
Thiago, teu nome tem mesmo som de amigo.
Tem esse caboclo jeito de olhar nos olhos da gente e saber que de tanta porrada a gente aprende.
Erra, mas aprende.
E descobre um dia, esse animal sonoro, que profundo e feroz
reina em nosso peito.
Obrigado Thiago.
Obrigado por você existir.
© by Nelson Natalino - 1988
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São sete filhos, arre égua esconjuro,
No cemitério atrás do muro
Um sete em sangue apareceu
Dos sete filho o mais novo traz na testa
Um sete escuro que atesta
Que o destino lhe escolheu
Em sete ano, sete mês e sete lua,
O menino foi pra rua
Inté as sete não voltou
Naquela noite, choveu sete tempestade,
Não por gosto ou por vontade, o menino barbeou
Mais sete ano se passaram, com mais sete tava claro
Que algo ia acontecê
Nos outros sete o meninno se fdez home
E sete noite passou fome
Sem vontade de comê
E sete raio, sete estrondo de trovão
Disparô seu coração, quando a lua apareceu
Ninguém rezou as sete reza da paixão
Que liberta o coração de um cabra que encantô
E o pobre moço foi entregue ao destino
Badalaro sete sino, a meia noite anunciou
Ele vagou por sete hora em desespero
Cão–do-mato, home em pêlo
Sete gente ele matô
O desencanto sete encruza,sete vela
sete vida de donzela
ele tinha que pagá
essa procura faz vagá eternamente
Quem sabe até se de repente
Ele não possa lhe encontrá
© by Nelson Natalino - Agosto 2003
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