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A dramatugia de Nelson Natalino
A seguir trechos de textos desenvolvidos. Caso queira o texto de alguma das peças na íntegra para montagem, solicitar à SBAT ou diretamente a nós, por e-mail. Ainda fazendo parte do item dramaturgia, temos alguns roteiros desenvolvidos, clique aqui para acessá-los.

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Trecho do texto TUTTI BUONA GENTE (comédia), premiado em 2006 no Projeto Palavra em Prisma de Dramaturgia da Secretaria de Cultura de Guarulhos.

(CLIQUE AQUI E VEJA VÍDEO DA MONTAGEM DE 2007)

Segundo Ato
Gennaro, Michelina e o Nôno estão na sala assistindo televisão, comento pipocas de costas para a porta.

Nina chega puxando João pela mão para dentro de casa. Ele está relutante. Ela está com a mini-saia e o bustiê que Gennaro proibiu. João tem um pasta na mão que deve acompanha-lo sempre, em todas as cenas.

Nina      

 Pai... mãe...

Gennaro 

Aspeta, Nina...Cala a boca mi dexa vê o finale do filme... ( enche a boca de pipoca)

Michelina sofre com as últimas cenas do filme. Nina percebe que está com a roupa que o pai proibiu abre a mochila e pega a roupa Indiana.

Michelina

(limpando  lágrimas do rosto ) Ma que belo Gennaro!....

Nina percebe que o filme acabou e sai pela porta deixando João sozinho. Ele ameaça sair, mas Gennaro olha para trás.

Gennaro 

Qui é questo ? ( fala cuspindo pipocas)

João volta e sorri amarelo. O Nôno dorme.

Gennaro 

( gritando) Qui é questo ?

Nina volta rápido, se arrumando.

Gennaro 

(fala mais baixo)  Qui é questo, Nina?

Nina      

(fala sorrindo, olhando para jõão, orgulhosa) Eu trouxe meu namorado pra vocês conhecerem...

João sorri para ela.

Gennaro 

E dove está ?

João fica sério.

Nina      

(fica séria também) Mais como dove está, pai ? tá qui, ó o João !

Gennaro 

Ah ! É questo ?  Juon ? Piaceri... Gennaro al suo dispor, má pode mi chamar sólo di... Signore....  i questa é Dona Michelina... la mama di questa chiveta de la sua namorata (ameaça dar um tapa com as costas na mão em nina que se esconde atrás de joão).

Michelina

(ESTENDENDO A MÃO DE LEVE PARA ELE)  Piacere...

Gennaro 

Quelo lá é o Nôno qui dorme....E vamo sentá.

João acena para o Nôno e sorri novamente para Nina e ela para ele, encolhendo os ombros. Entram e sentam no sofá. Nina põe a pasta no colo. Gennaro leva Michelina para a frente do palco.

Michelina

Qui qui é?

Gennaro 

(fala a parte para michelina) Como o que que é? Minha .nossa Senhora da Piroquita, hein?

Michelina

Chiropitta!!!!

Gennaro 

Nesse caso, é Piroquita, mesmo, han? Você viu?Ê uno nanico, eh? Até pensei que fosse otro .... (sorri para os dois que já devem estar sentados) intón... quanto tempo já tão namorando?...

João      

(acanhado)  Uns seis mês, seo Gennaro... Mais a Nina aqui achô melhor isperá um pouco antes de eu vim aqui....

Gennaro balança a cabeça. João tira a pasta do colo de Nina, põe no chão e  põe a mão no joelho de Nina, que sorri para ele.

Gennaro 

(TIRANDO delicadamente A MÃO DE JOÃO DO JOELHO DE NINA E COLOCANDO-A NA PRÓPRIA PERNA DE JOÃO - fala calmo)  Primero, una cosa qui io gosto nesta casa é (grita nervoso) respeto !!!.

João se encolhe todo no sofá. Genaro desliga a televisão e volta. O Nôno ronca.

Gennaro 

(sentando ao lado de joão e voltando a falar calmamente) Juon.. me diga qüi... (PÕE O BRAÇO NAS COSTAS DE JOÃO ) Cosa fá na puta da vida?

João      

(meio desconfortável)  Eu  sô piruero, sim senhor...

Gennaro 

Deixa pensare....biruero.... (fica pensativo por uns instantes) biruero... Ah! sí, deve ganhá molto dinhero no natar...

João      

(sem entender bem) No natal?

Gennaro 

Esso... no natar...

 

João      

É...  no natal dá sempre um pouquinho mais...

Gennaro 

Ma come, uno poquinho ?? Intón num vende muitos pirú pra ceia du natar?? .

João       

 Não... eu não vendo perú,  não senhor.

Gennaro 

Come nô vende o pirú? Cosa é piruero, intón ?

Nina      

Ele é motorista de lotação, pai  Perueiro, de Perua...

Gennaro 

Lotacón? Motorista da pirua ?  I von vivê du quê, se casá ? Istuda pur ao menos ?

João      

 Não... (fala sério)  mas eu tenho um grande projeto....

 

 

 

joaodemaria

Trecho do texto A ESTÓRIA DE JOÃO DE MARIA (drama), também premiado em 2006 no Projeto Palavra em Prisma de Dramaturgia da Secretaria de Cultura de Guarulhos.

Narrador-O tempo passou rapidamente. Todo o carinho que João colocou em cada semente, converteu-se em vida e alimento... A terra fora generosa . O milharal se estendia a cada palmo de solo, cada milimetro do chão, exuberante e graúdo, como jamais se vira na região...Tinha em sí cada gota de suor, cada gesto de amor, cada dia de vida de Maria e de João..Aprazava o momento da colheita. e João orgulhoso olhava sua plantação.  (PAusa)  Até que um dia... (VIRA-SE PARA O PALCO)

 

 

João      

Sei lá, Maria, sei não.... Num tarda e passa do ponto essa hora da coieta...

Maria     

I qui qui ocê qué fazê João ?

João       

Careço di í inté a cidade pra vendê esse mio, qui daqui a poco só servi pra mó di animar ruminadô...

Maria     

 Vrige Santa ! Intonce num vai valê nada...

João      

Nem os cento e cinquenta qui aproveitadô do Zeca de Bibí fereceu vai valê...

Maria    

Mai a cabritinha leitera, né Jão ?

João       

Puis é...

Maria     

Intonce percura ele, home !
 

João       

Ocê tá maluca da cabeça, Maria? Adispois di tudo qui eu falei prele naquele dia o home é capaiz inté di querê mi batê...

Maria     

Intonce, João vai lá na cidade e... (alguem bate palmas em off - PAusa - Maria olha assustada para joão)  Quem havéra de sê João ? (palmas em off novamente)

João       

Num sei, não... devi di sê argum viajante cum fome ou com sêde. Deixa eu vê...

Vóz em off

ô de casa !!! Tem alguém aí ?

João       

(Na porta) ( PARA MARIA) É um cavaleiro.... ( PARA fora) Apeie,  cavaleiro, vamo entrá... (PAusa - o homem chega à porta)

Homem   

Licença... (curiosa e descaradamente ele olha detalhe da casa de joão - maria envergonhada se esconde atrás de joão)

João       

A casa é di pobre, sim sinhô... mais tá sempre aberta pra quem qué um copo di água, um prato di comida ou mermo o discanso do corpo...  A mó di que  o sinhor veio ?

Homem   

(o homem cai em sí) Ah! Pois é...   Desculpe eu entrar assim nas suas terras... mas a porteira estava aberta, e aí...  O senhor que é o dono desse milharal que tá lá fora ?

João       

(desconfiado) Eu mermo...  mó di que o sinhô qué sabê?

Homem   

Sabe o que é ? Eu tava passando pela estrada e não pude deixar de adimirar sua plantação...

João       

Gradeço...  Mai... é só mio, dotô...

Homem   

Pois é o meu negócio... (tenta fazer com que joão fale o seu nome) “seo”... “seo”.... (joão olha para maria e não entende)Qual é o seu nome,  mesmo ?

João       

Ah!  É João, sim sinhô.... ao seu dispô...

Homem   

Muito prazer... meu nome é Aderbal... Aderbal Conceição Tavares...
Pois então... como eu dizia... milho é o meu negócio... tenho aí pelas estradas uma tal de  Tenda da Pamonha... já ouviu falar?

João        

(  sem tirar os olhos do homem) nunca ouví falá, não sinhô Arde... Ardebaldo... Ardebal... Sinhô Tavaris

Homem   

Bem... isso não importa... São lugares nas estradas onde os viajantes param para comer um cucuz... um curauzinho... um milhozinho quente... umas pamonhas...
 

João       

Apois ?

Homem      

Apois ? Bom, apois me interessa sua palantação... porque faz muito tempo que não vejo um milharal tão bem cuidado e milho de tão boa qualidade...

João      

Apois ?

Homem  

Sua plantação há de me garantir o bom andamento do negócio..

João      

Apois ?

Homem   

Bom... eu acho que  esse seu “apois” quer dizer dinheiro, é isso ? Posso lhe garantir que dou um bom dinheiro pela sua colheita...

João       

Ara ! Quanto ?

Homem   

Trezentos !

João       

Quero não ! (MARIA BELISCA JOÃO POR TRÁS) Quieta, muié ! É poco...

Homem   

Quinhentos... (JOÃO FICA PASSIVO E NÃO RESPONDE) setecentos e nem mais um tostão...

 

Maria 

 

(COTUCANDO JOÃO)  Ói João... Setecentos home ! Setecentos !

 

João       

 

Só si fô setecentos mai uma cabritinha leitera aquí pra Maria... aí intão tá feito ! (estica a mão para o homem)

Homem   

Concordo. Bom ! Muito bom !  Vou mandar fazer o contrato e trazer aquí para o senhor assinar.

João        

Carece nada disso não ! O sinhô manda o dinhero, leva  o mio e tá cabado ! É no fio do bigode.  Nem siná meu nome eu sei...

Homem   

Então está acertado ! É no fio do bigode ! (apertam novamente  as mãos)

João       

Sim sinhô ! Im déis dia podi manda vi panhá o mio que vai tá tudo ensacado pro sinhô !

Homem   

Então tá fechado! Até a vista Sr. João... até logo senhora! Pode esperar sua cabritinha leiteira...(MARIA ENVERGONHADA DÁ UM TCHAUZINHO DE TRÁS DE JOão )

João        

Inté  Seu Ardebal... Ardebal... Tavaris !(O homem sai - joão GRITA DA PORTA) Num isqueci di mandá tomém o dinhero! Setecentos e cinquenta !

Homem   

( em off)  Setecentos Sr. João... Setecentos ! Pode deixar !

 

João encolhe os ombros sorrindo e depois  abraça Maria - Saem pulando   e rindo de felicidade.


João       

Sim sinhô ! Vai dá inté pra ponhá o reboque nas parede...

Maria     

E eu vô ganhá minha cabrinha leitera...

João       

I eu vô comprá  uns par de galinha...

Maria     

I pato, i ganso...
 

João       

Dois leitãozinho...
 

Maria     

Ara, João é bão dimais pra sê verdade...

João

Quero inté comprá um vistido novo procê lá na cidade...

Maria     

Num credito, João !
 

João      

Num ti falei qui tem mais Deus pra dá qui o Tinhoso... esconjuro... pra tirá ?

 

Maria     

 

Tem memo qui gradecê a Deus num é?

João       

Poi intão num gradeçu todo dia, Maria... dia bão e dia ruim... (PAUSA)
Maria.. daquí dois dia eu cumeçu a coieta..

Maria     

Pois queru ti ajudá...

João       

Carece disso, não, Maria...

Maria     

Num importa... quero qui quero memo....

João       

Uai... ocê é qui sabe... pra mim vai sê bão, né ?

Maria     

Ô João... João... amo ocê dimais....

 

 

logo rapunzel

 

Trecho do texto RAPUNZEL (infantil).

CENA 2 - O LENHADOR ENTRA PÉ ANTE-PÉ, LENTAMENTE. ESTÁ CHEGANDO À CASA DA BRUXA. ESTÁ MORRENDO DE MEDO.  OLHA ASSUSTADO PARA OS LADOS. VÊ AS VERDURAS NO CHÃO. APROXIMA-SE BEM DEVAGAR. ESTENDE A MÃO PARA PEGAR A VERDURA.

 

 

LENHADOR

-

 (RECUA COM MEDO) aaaaiiii. (ESTENDE NOVAMENTE A MÃO DEPOIS RECUA COM MEDO) aaaaiiiiiii... (VAI PARA FRENTE DO PALCO - FALA COM O PÚBLICO) Pode uma coisa dessas? Minha mulher não podia querer alguma coisa mais fácil?  (PAUSA – OLHA PARA A VERDURA) aaaaiiii, meu Deus! (PAUSA) Ela não podia querer comer uma coisa maluca como todas as grávidas? Um pedaço de tijolo, por exemplo? (ESPERA UM POUCO PELA REAÇÃO DO PÚBLICO) É verdade!  Você nunca ouviu falar que mulher grávida gosta de comer tijolo?  Então... Ou então alguma coisa assim como bacalhau com chantili e mostarda... Não é? Isso é coisa de grávida!  Ou então... Sei lá, caldo de estopa com serragem.... Essas coisas... Mas, não! Ela quer escarola e nabo, coisa que só dá aqui... Na casa da Bruxa Malvina... Bom, mas vá lá!

Qualquer coisa é melhor que um filho com cara de escarola e nariz de nabo...  Vamos fazer o que precisa ser feito. ... (VAI EM DIREÇÃO Á VERDURA E QUANDO CHEGA PERTO FALA VIRADO PARA O PÚBLICO) Aaaaiiii.

NOVAMENTE SE APROXIMA BEM DEVAGAR. ESTENDE A MÃO PARA PEGAR A VERDURA. RAPIDAMENTE PEGA A VERDURA E COMEÇA A SAIR COMO ENTROU.  SILENCIOSAMENTE. SAI OLHANDO PARA TRÁS PARA VER SE A BRUXA NÃO VEM. ELA CHEGA PELA SUA FRENTE, SEGUIDA PELO APRENDIZ DE FEITICEIRO.  O LENHADOR DÁ UMA TROMBADA COM ELES.

LENHADOR

-

Desculpe!  (OLHA PARA A BRUXA, GRITA,) Ahhhhhhhhhhhhhh! (PERDE A VOZ E FICA PARADO, ESTÁTICO OLHANDO APAVORADO PARA A BRUXA).

 

MALVINA

-

Muito bonito, hein?

 

CRONTÉLIO

-

Muito bonito, hein?

 

LENHADOR

-

(GRITA NOVAMENTE, JOGA A ESCAROLA PARA O ALTO E SAI CORRENDO) Ahhhhhhhhhhhhhh!

 

CRONTÉLIO CORRE ATRÁS DELE E A BRUXA FAZ GESTO COMO QUEM JOGA UM LAÇO NA DIREÇÃO DO LENHADOR

MALVINA

-

Onde você pensa que vai?  (FAZ GESTO DE PUXAR A CORDA) Pensa que foge de mim assim?  (O LENHADORVOLTA DE RÉ COM OS BRAÇOS JUNTO AO CORPO, COMO SE ESTIVESSE LAÇADO PELA BRUXA - CRONTÉLIO VOLTA EMPURRANDO O LENHADOR)

 

 

 

 

LENHADOR

-

(ASSUSTADO) Por favor... Não faça nada comigo...  Eu... Eu... Não fiz nada...!

MALVINA

-

Não fez?  Não fez ? E as verduras que você estava roubando ?

 

CRONTÉLIO

-

(REPETE NO MESMO TOM DA BRUXA) E as verduras que você estava roubando, hein? Tava roubando, hein?

 

MALVINA

-

Cala a boca aprendiz!    (CRONTÉLIO ENCOLHE OS OMBROS E FICA AMUADO)

 

LENHADOR

-

(FALA COMPLETAMENTE AMENDRONTADO) EE..E..E.. Eu  po..po..posso expli... pli... pli car  Do... Do... Dona Bruxa ! 

 

MALVINA

-

(GRITA MUITO BRAVA) Eu não quero ouvir explicação nenhuma! Comigo não tem explicação.... Eu vou é te jogar um feitiço ! (ERGUE OS BRAÇOS, COMO SE FOSSE JOGAR O FEITIÇO NELE)

 

LENHADOR

-

(GRITA) Pára ! Espera aí ! Sabe o que acontece ?

 

MALVINA

-

Não sei e não quero saber!  E eu não vou gastar minha energia maligna com você ! Não vou  jogar feitiço nenhum...

 

LENHADOR

-

(AJOELHA) Obrigado, Dona Bruxa... Posso ir embora ?

 

MALVINA

-

Não ! É claro que não! Eu não vou gastar energia... Quem vai fazer isso pra mim é meu aprendiz! ... Crontélio! Transforme esse ladrão num sapo !

 

 

O LENHADOR TENTA FUGIR MAS NÃO CONSEGUE. PARECE QUE ESTÁ PRESO NUMA GRADE INVISÍVEL

 

CRONTÉLIO

-

Oba! Até que enfim vou praticar ! (FALA PARA O LENHADOR) Fica quieto aí senão eu não posso me concentrar !  (PARA  A BRUXA) UM sapo, né ? A Senhora quer um sapo ? Vamos lá... (CONCENTRA-SE - PENSA) Sapo.. sapo...  Ah! Já sei... (ERGUE OS DOIS BRAÇOS)  springa salamon tucatuca lambelambe lacopapo... (BAIXA OS BRAÇOS APONTANDO OS DEDOS PARA O LENHADOR ) transforme-se num sapo !

 

O LENHADOR COMEÇA A FAZER GESTOS COMO SE TIVESSE SE TRANSFORMADO NUM MACACO.

 

MALVINA

-

Crontélio! Estúpido ! Eu falei  sapo ! Não macaco! Você não aprendeu nada!

(ERGUE OS BRAÇOS NA DIREÇÃO DO APRENDIZ) Locopapo...

CRONTÉLIO

-

(SE AGACHA COM MEDO E GRITA ) Não !

 

 

sinaleliro

Trecho do texto - O SINALEIRO AMARELO UMA FOTONOVELA TEATRAL (comédia)

CLIQUE AQUI E ASSISTA UM VÍDEO DA MONTAGEM DE 2007/2008

 

TROMBADÃO

(ABRINDO UM CANIVETE AUTOMÁTICO E ERGUENDO-O COMO SE O ESTIVESSE COLOCANDO NO PESCOÇO DA VÍTIMA)

Qué dizê  que tu qué teu relógio di vorta?

(APAGA O FOCO DO TROMBADÃO E ABRE FOCO SOBRE A VÍTIMA)

 

VÍTIMA   

Eu não podia responder.
Primeiro porque o puta canivetão empurrando o meu maxilar inferior de encontro ao maxilar superior. Eu já erguera o pescoço até o limite do possível, de  forma que qualquer movimento que fizesse a partir de então resultaria infalivelmente num ferimento, cujas conseqüências só Deus iria determinar. Por esse motivo eu não podia falar. Se conseguissebalbuciar alguma coisa seria com os dentes cerrados. Mas na realidade, eu não ia mesmo conseguir falar é de medo. A voz com certeza não iria sair . O trombadãopercebendo isso  resolveu responder a sua própriapergunta por mim, e continuou.

(APAGA FOCO DA VÍTIMA E ABRE FOCO SOBRE O TROMBADÃO)

 

TROMBADÃO

Qué o relógio, num qué? Poi num vai tê não! E já que tu veio inté aqui, tu num vai perdê a viage não! Cadê a cartera?

(APAGA O FOCO DO TROMBADÃO E ABRE FOCO SOBRE A VÍTIMA)

 

VÍTIMA  

Fiz movimentos bem lentos, temendo alguma reação do trombadão.
Ergui a mão até o bolso do paletó, retirei a carteira e estendi a mão para entrega-la. Senti o quanto estava tremendo então.
Ele ficou olhando para a minha mão trêmula e sorriu de satisfação. Acho que deu então para que ele sentisse o quanto eu estava apavorado. Isso deve tê- lo acalmado um pouco. Senti o canivete se afrouxar no meu pescoço.

Me senti mais aliviado.

Ele deu uma olhadela no conteúdo da carteira e falou:

(APAGA FOCO DA VÍTIMA E ABRE FOCO SOBRE O TROMBADÃO)

TROMBADÃO

(COM UMA CARTEIRA NA MÃO - MANTENDO O CANIVETE COM  A OUTRA MÃO)É poco. Queru mai.

(ABRE LUZ GERAL - O TROMBADÃO FICA PERTO DA VÍTIMA)

 

VÍTIMA  

Aí, com o afrouxamento do canivetão e  alguns instantes que aliviaram a tensão, eu conseguir resmungar um "não tenho" meio gaguejado.

TROMBADÃO

Esse sapato é coro de cocrodilo?

VÍTIMA   

É.

TROMBADÃO

Qui número?

VÍTIMA   

4l.

TROMBADÃO

Servi. Tira. aproveita i tira as carça e u palitó tomem.

VÍTIMA   

Tirei o paletó, (TIRA O PALETÓ E DÁ PARA O TROMBADÃO) tirei o sapato.(TIRA OS SAPATOS E DÁ PARA O TROMBADÃO )  Mas no momento de tirar a calça... (TENTA ABRIR A CALÇA E O ZÍPER ENGUIÇA)  o maldito zíper enguiçou!.

(APAGA LUZ GERAL E ABRE  FOCO SOBRE A VÍTIMA)

Será que você já percebeu que o zíper está sempre contra a gente? Quando enguiça, é sempre o contrário do que a gente quer. Se queremos que ele se abra, ele enguiça fechado (geralmente quando estamos apertados para fazer xixi, ou no meu caso, pra entregar a calça para um assaltante.

(CONTINUA TENTANDO ABRIR O ZÍPER E SENTE DORES NA MÃO ESQUERDA MACHUCADA)

Pra ajudar, ainda por cima, minha mão esquerda doía cada vez mais. Eu sentia um coração pulsar na ponta de cada um dos dedos.
O trombadão me apertou.
(APAGA FOCO DA VÍTIMA E ABRE FOCO SOBRE O TROMBADÃO)

 

TROMBADÃO 

Cumé qui é? Vai demorá? Tenho o dia todo não!

(APAGA FOCO DO TROMBADÃO E ABRE FOCO SOBRE A VÍTIMA)

VÍTIMA    

Ele falava rangia os dentes e olhava pra todos os lados. E o maldito zíper emperrado! (PAUSA)

Cada vez mais eu me desesperava. (MOSTRA DESESPERO)

Ele rangia os dentes.

Cada vez mais eu me desesperava.

E ele olhava pros lados. No desespero total, resolvi apelar:

- Dá pra me ajudar? -  Falei com a voz tremula Ele  parou  imediatamente  de  olhar  para os lados, seus olhos ficaram semicerrados (de ódio, imagino eu) rangeu mais uma vez os dentes e me disse muito bravo:

( ABRE FOCO SOBRE O TROMBADÃO)

 

TROMBADÃO

( COM RAIVA)Abri  sua  braguilha, eu? Ô sô félo da puta, cê tá pensanu que ô  sô viado?

(APAGA FOCO DO TROMBADÃO)

   
   
WOYZECK

 

Adaptação livre de Woyzeck (cenas 19 e 20)

fragmentos da peça deixados pelo alemão Georg Büchner, que morreu aos 23 anos, em 1837, enquanto ainda esboçava a peça. A adaptação traz as cenas para o sertão do nordeste brasileiro onde Woyzeck é Zé, um soldado da volante, que sai à caça de cangaceiros.

 

 

(cena 19)

Contadô de históra - Ele era um barrigudin...
Desses, que peleia puraí mó de ajeitá um rabo de calango que lhe sirva como argo de cumê...
Sustança... que lhe mate a fome.
E si arrastano na secura da terra vremeia e chorano enxuto, ele vai, percurano os calango.
A seca é pur dimais.
E já levô as água pu céu e de lá ela num vortô mais.
Nem anunviô. Invaporô. Foi-se.
E já levô gado, dexano as caracaça, custela só incuberta de coro.
E prantação já levô, tingindo o verde de marron seco..
Levô  as isperança do povo.
E du povo vai levano as gente, anssim, anssim, lentamente.
Levô anssim, di home i muié... anssim.
Levô.
E dexô no desamparo da onfandade as criança do cafundó e tomên o barrigudin do choro inxuto.
E largô ele lá, dibaxo do carro boi, marrado nas carcaça seca, disminingüida.
Lá, donde há sombra só no sol a pino.
I di lá o barrriguin do chorô inxuto, viu lá, em dois dia, pai e mãe atrofiá inté esgotá e dispois esbugaiá os óio e  morrê!
Quanu levaro os dois na rede, mó dinterrá, disseru lá pru barrigudin qui eles agora tava mió.
Qui foru pru céu.
I o barrigudin creditô.
Limpô da cara a puera do choro e si pois a avuá, mó dincontrá o céu e pidí bença do pai, bejo da mãe e um surriso prus dois.
I vuô inté incontrá o céu.... Inté incontrá o céu. Inté incontrá o céu....
inté percebê as ranhura seca da árvore desabando co peso do seu corpo e espaiano puera quando se arrebentô no chão.
E u menino chorô sua lagrima de vapô e olhô pru sol  e dele resolveru si apossá. Mai o sol lhe virô as costa e deu uma vorta i meia in redó di si e dispencô frô murcha i morta tômen na sequidão.
Quando a noite deitô os braço na terra, traveis o barrigudin levantô mó di avuá e catá as istrela.
Qual o quê!
Ispinhô as mão nos cacto, us único verde a se atreve rompe u chão.
Tonce, u barrigudin arresorveu vortá pra terra  e largá esse negóço de avuá.
E posô nu nada.
Num nada, infinitamente seco.
E quente.
E morto.
O barrrigudin então sentô-se e vortô a chora seu choro inxuto.
E ta lá.
Sentado isperano qui a seca lhi devorva o direito di avuá.


(cena 20)
Zé tava lá nas miliça... no regimento.
Treis meis, sertão adentro mó di cabá co' as piripécia du cangaço.
A volante tinha pra mais di cem macaco pra caçá 20 homi, as mulé e us barrigudin... as criança qui andaro rebentano ao Deus dará do amô dus cangacero...
O povo falava que era uma gente raçuda, qui tirava dus bem provido, pra servi essa gente qui si arrasta, mó di vivê.
Mais pra puliça elis era bandido.
Puliça...
Era pra mais di cem macaco... atacaro no amanhecê.
Truxero umas 30 cabeça ispetada nas baioneta pingando sangue agreste afora.
Quano vortô dispois di treis meis,  Zé troxe o soldo e uma cabeça espetada na sua baioneta.
Quano chegô em casa, incontrô Maria buxuda traveis.

Voz 1 - Buxuda!
Voz 2 – Ta só de dois meis, Zé
Voz 3 – Dois meis, Zé!
Voz 4 – O cornetero do regimento, Zé...
Voz 1 – O corneteiro...
Voz 3 – Dois meis, Zé!

Maria -  Chegamu, Zé. Óia os lume da cidade. Anda home. Tá iscuro.
– Maria! Fica mais eu! Si achegue!
Maria – Mai nóis já tá pértin, Zé. Vamo!
– Se apresse, não! Vai alanhá us pé...
Maria – Vixe! O qui ocê tem home?
– Quanto tempo faiz, Maria?
Maria – Na festa di padim Ciço faiz dois ano...
– I quanto vai durá ainda?
Maria – Careço di preprará a janta, Zé.
– Tá cum frio Maria?  Tá não, num é? O corpo parece fogo-fátuo! Queima! Essa boca! Essis lábio quente! Respiração de quenga! Vagabunda! Mais eu quiria inda assim bejá ocê mais uma veiz! Ce tá cum frio? Quanu ficá gelado num tem mais frio!
Ocê num vai sintí o orvaio gelado da manhã, vai não!
Maria –O qui ocê tá dizenu, home?
– Nada, não.
Maria – Aminhã vai faze sol. A lua tá vremeia.
– Ingual a ponta da minha baioneta... tar i quar minha pexera!
Voz 1 – Apunhale e mate a loba!
Voz 2 – Apunhale e mate a loba!
Voz 3 – Apunhale e mate a loba!
Maria – Du quê ocê tá falano? Ocê tá mais branco qui vela! (Zé puxa a peixeira) O que é isso, Zé? Pára home de Deus!
Voz 2 – Apunhale e mate a loba!
Voz 3 – Apunhale e mate a loba!
Voz 4 – Apunhale e mate a loba!
–Isso agora vai fazê parte docê ! Toma! Ce sabe morrê, Maria? Tome! Si mexe Maria? Si mexe? (Golpeia repetidamente) Maria! Maria! Si mexe! Si mexe? Tá morta, quenga? Morta? Morta! (gente chegando - foge).

 

o assalto

Trecho do texto O ASSALTO - (comédia)

NORA - Olha que eu vou, hein?
LUCA - Vem... Vem.

NORA SENTA-SE AO LADO DE LUCA. COMEÇAM A TROCAR CARÍCIAS .
A VOLÚPIA DEVE CRESCER RÁPIDAMENTE. AGARRAM-SE.  LUCA ACABA SOB NORA.  LUCA OLHA PARA A CÔMODA E SENTE FALTA DO RELÓGIO - GRITA.

 

 

LUCA - Meu relógio!

LUCA LEVANTA-SE ABRUPTAMENTE E DERRUBA NORA.

LUCA - Meu relógio!(APONTA PARA O LUGAR VAZIO ONDE DEVERIA ESTAR O RELÓGIO) Meu relógio suíço de duas gerações!
NORA - (NO CHÃO, CAÍDA) Relógio ?  Que relógio, Luca? Tá doido?

LUCA PARA DEFRONTE A CÔMODA OLHANDO-A E COÇANDO A CABEÇA, COMO QUEM NÃO ENTENDE O QUE ACONTECEU.

LUCA -     Meu relógio, Nora! (BATE FORTE COM A MÃO SÔBRE A CÔMODA) Ele estava aqui. Bem aqui! Antes de sair eu ainda dei corda nele! Tenho certeza! Ele estava bem aqui, Nora!
NORA - Ah! Anjinho vai ver que você deixou lá quarto... Você levou pra lá e esqueceu de trazer...
LUCA - Não! Ele estava exatamente aqui. Neste lugar. Então eu não sei o que estou dizendo?   Tenho plena certeza!

NORA - (SENTANDO-SE NO SOFÁ) É! Como o seu chinelo!
LUCA - Chinelo?  Que chinelo, Nora?
NORA - O chinelo que você tinha certeza que estava embaixo da cama!
LUCA - Ora... O chinelo eu tinha guardado e esqueci.
NORA - Dentro da geladeira, né, Luca? (PAUSA) (BATE A MÃO DE LEVE NO SOFÁ) Vem aqui, vem Luquinha... Senta aqui.

OLHANDO PARA LUCA QUE ESTÁ PENSATIVO, CONVERSANDO SOZINHO, COMO QUEM NÃO ENTENDE BEM O QUE ESTÁ ACONTECENDO.
NORA LEVANTA-SE ANDA ATÉ ELE, ABRAÇA-O E COMEÇA A SE ESFREGAR
NELE.

NORA - (PROVOCATIVA) O meninão sossegou, é?  Não está mais doidinho pela sua Norazinha?

LUCA COMEÇA A SE ENVOLVER NOVAMENTE.  NORA SE INSINUA CADA VEZ MAIS.

LUCA - Mas o relógio... O relógio...(NORA COMEÇA A PASSAR A MÃO EM LUCA - ELE NÃO AGUENTA) Ah!  Foda-se o relógio! Quem é que quer saber de horas agora? (LUCA ABRE A CAMISA – QUE DEVE TER VELCRO EM LUGAR DE BOTÕES - DE UMA SÓ VEZ, COMO QUEM ARREBENTA OS BOTÕES) I’m the Superman!

NORA VOLTA PARA O SOFÁ.

NORA - Vem, meu Clark! Vem quente, que eu tô fervendo! Vem aqui que eu quero ver se você é super mesmo !
LUCA - Quer ver? Quer ver? Você vai ver o meu super meninão de aço!

PULA PARA O SOFÁ. DEITAM-SE NOVAMENTE.  AJEITAM-SE. - NORA EM
CIMA E LUCA EMBAIXO - A POSIÇÃO, ENTRETANTO, DEVE SER INVERTIDA A DA PRIMEIRA CENA, DESTA VEZ COM A CABEÇA DE FRENTE PARA A PAREDE ONDE ESTAVA O QUADRO QUE O LADRÃO TIROU.

NORA - Meu supergostosão!

LUCA COMEÇA A TIRAR A ROUPA DE NORA E NORA A ROUPA DE LUCA.

LUCA - (GRITA ALUCINADAMENTE) TESÃO! SUPERTESÃO!

FICAM SOMENTE COM AS ROUPAS ÍNTIMAS. COMEÇAM A SE APALPAR FRENÉTICAMENTE. DE REPENTE LUCA PÁRA.  OLHA FIXAMENTE PARA A PAREDE DO QUADRO. LEVANTA-SE RÁPIDO E DERRUBA NORA NOVAMENTE.

LUCA - (LUCA GRITA) Meu Van Gogh!  Meu Van Gogh!
NORA - (CAÍDA NO CHÃO) Puta que o pariu! Que Van Gogh?
LUCA - Meu quadro do Van Gogh! Sumiu dali!

NORA - (AINDA CAÍDA NO CHÃO) Que Van Gogh! Cópia de Van Gogh!
LUCA - Mas é a MINHA cópia do quadro do Van Gogh! Alguém o tirou daí!
NORA - Porque não dá uma olhadinha na geladeira?
LUCA - Vá a merda Nora ! Eu fui roubado! Nós fomos roubados! (ABRE A GAVETA DA CÔMODA - GRITA HISTÉRICO) Meus dólares! Meus dólares! Fomos roubados mesmo, Nora! (ANDA DE UM LADO PARA OUTRO COM AS MÃOS NA CABEÇA-NORA SENTA NO SOFÁ E PERMANECE IMPASSÍVEL) Meu Van Gogh... Meus dólares... Meu relógio... (PAUSA) A polícia! Ligue para a polícia, Nora! (NORA NEM SE MEXE) Pode deixar! Eu mesmo ligo!

O LADRÃO SAI DETRÁS DA CORTINA COM O REVÓLVER NA MÃO.

ADRÃO - Não precisa ligá, não, Senhor Superman. Nóis pode si entender nóis mesmo. (PUXA O FIO DO TELEFONE) você só precisa tomar cuidado com a Kriptonita. (MOSTRA O REVOLVER)

O LADRÃO TEM UM LEVE SORRISO NOS LÁBIOS. NORA ESTÁ COM OS OLHOS ESTALADOS OLHANDO O REVÓLVER. SUA BOCA ESTÁ TOTALMENTE ABERTA. LUCA ESTÁ COM AS MÃOS ESTICADAS PARA CIMA.
ESTA SITUAÇÃO DEVE PERDURAR ALGUNS MOMENTOS EM SILÊNCIO.

NORA - (AINDA COM A BOCA ABERTA, E OS OLHOS ESTALADOS COMEÇA A MURMURAR LEVEMENTE) Ai... Ai... Ai... (O MURMURIO VAI CRESCENDO LENTAMENTE) Ai... Ai... Ai... (OS DOIS VIRAM A CABEÇA E FICAM OLHANDO PARA ELA) Ai... Ai... Ai...  (NORA VAI FICANDO HISTÉRICA) Ai... Ai... Ai...Ai! Ai ! Ai !

NORA PÁRA IMEDIATAMENTE E VOLTA AO NORMAL, APENAS FICANDO QUIETA E OLHANDO FIXAMENTE PARA OS OLHOS DO LADRÃO.

LADRÃO - Que merda!  Vai, aniversariante... vai lá do lado do teu super-homem, vai !

QUANDO NORA PASSA O LADRÃO DÁ UMA TAPA NA BUNDA DELA.

LADRÃO - Parabéns gostosa !

LUCA FICA NERVOSO.

LUCA - Olha aqui, seu assaltante...  Pode pegar o que quiser, mas não  mexe com a minha Nora, não, por favor.


LADRÃO - Pode ficar sossegado que eu não vou mexer com a tua mulherzinha, não. Eu não misturo trabalho com prazer. Depois, eu sou casado. E muito bem casado. (PAUSA).    E também, com esse negócio de AIDS  que anda por aí, a gente não pode  bobear não.

NORA - (NERVOSA) Que AIDS !  Eu não tenho AIDS não !

LADRÃO - Não adianta a senhora insistir, não , Dona. Hoje realmente eu não tô a fim. E depois, quem pode garantir isso ? Com a AIDS solta do jeito que tá, quem garante ?
LUCA -  Minha mulher eu garanto ! A gente é casado há apenas um ano  e eu tenho certeza de que ela é fiel a mim, assim como eu sou  fiel  a ela.
LADRÃO -  Eu não me arriscaria a dizer isso, do mesmo jeito que eu não me arrisco fora do casamento.  E fogosa do jeito que eu vi que ela é, ninguém me convence, de que pelo menos uma gonorréiazinha tem por aí.
NORA   - (COMPLETAMENTE DESCONTROLADA) Gonorréaizinha ? Gonorréiazinha tem tua vó, seu filho da p... (LUCA TAPA A BOCA  DE NORA QUE SE BATE E ESPERNEIA TENTANDO FALAR)
LUCA -  Calma, Nora!  Cala a boca ! O homem está armado!
LADRÃO -  Muito bem. O Super-homem lembrou da Kriptonita! Agora, vamos ficar bem quietinhos, que eu preciso terminar o meu  trabalho. Vamos sentar aqui no chão, os dois. (NORA e LUCA  SENTAM LADO A LADO)Assim não ! De costas um para o outro. Assim. Quietinhos que o titio vai pegar uma cordinha aqui na  maleta.

O LADRÃO PEGA A CORDA E AMARRA OS DOIS.

 

libertas
Trecho do texto LIBERTAS (drama)
 

Mãe - o meu filho não é uma pessoa ruim..

Delegado – É o que todas dizem.

Mãe - Não é.

Delegado – É o que todas insistem em dizer.

Mãe - Pois eu lhe digo, meu senhor, que vocês são culpados por ele estar aqui.

Delegado – Era só o que me faltava. Daqui a pouco a senhora vai dizer que eu sou cumplice dele...

Mãe – Dele não, mas da situação sim. Vocês sabem onde estão os traficantes e eles continuam lá. Vocês sabem onde estão as drogas e elas continuam lá, vocês deixam que eles aliciem nossos jovens, que eles os envolvam, e depois que os subjuguem tornando-os escravos do vício... E a pobreza, esse mal sem culpa, a pobreza essa chaga da sociedade, a pobreza, essa moléstia que parece contagiosa, pois vocês fogem dos pobres como o diabo da cruz, também têm seu quinhão nessa armadilha, pois depois de aliciado e escravizado a  falta de dinheiro obriga esses jovens a praticarem crimes para os senhores do tráfico, para manter esse vício. E vocês deixam isso acontecer, quando vão lá, nos muquifos, nas bocas e recebem dinheiro lavado com sangue de inocentes, para fazer vistas grossas, para deixar que eles ajam impunemente, para deixar que eles aumentem o seu exército maldito de crianças escaravas do vício...

Delegado – A senhora está passando dos limites...
               
Mãe – Eu sei dos meus limites... E os senhores, sabem? Os senhores sabem onde está o limite entre o amor e o padecimento? O limite entre uma lágrima de desgosto e uma lágrima de perda? Sabem? Nós somos mães que têm que aprender a perder os filhos duas vezes: A primeira para as drogas e a segunda para morte.

UMA VIDA

Trecho do texto UMA VIDA NO MEIO DO CAMINHO (drama)

CENÁRIO : UM PONTO DE ONIBUS.. A  MULHER, GRÁVIDA, ESPERA O ÔNIBUS
                CHEGAR.  PASSA A MÃO NA BARRIGA E CONVERSA COM O FILHO.

 

 

MULHER

Não adianta nada  ocê ficar chutando aí.  Tem que esperar essa droga de ônibus de qualquer jeito. A pé é  que eu não vou. (PAUSA COMO QUEM OUVE A RESPOSTA)  Tú é impaciente mesmo,  né. negrinho ? ( PAUSA )   Eu vou te contar a história. Cê 
já tá cansado de ouvír ... Mesmo assim ocê qué ??  Então tá... Mas só enquanto essa droga de ônibus não vem. Pára de chutar ! Tá doendo !  ( NERVOSA).  Ocê num vai achá de me nascê no meio do ônibus, në ?  Tem que chegá lá no hospital da prefeitura...

É uma porcaria... mas pelo menos a gente come um pouco... Mas  o que eu como você pega tudo ... Parece que não sobra nada pra mim... ( PAUSA)   ai !!! pára de  me chutar !  Eu vou te contar....

É que a gente garra  a falar e perde o fio da meada. Eu vou te contar que eu não sei o que vim fazer nessa cidade, meu filho. Isso aquí é uma grande mentira...  Eu só vou te contar o que eu lembro... E não precisa ficar com medo não, que eu não vou te largar no mundo, feito  meus pais fizeram comigo, não....

Na verdade, eu tenho saudades deles... do pai... da mãe.... dos irmãozinhos ... da cidade de Três corações...  Diziam que o Pelé nasceu lá... Tinha  até  casa ainda... É o que diziam. Eu acho que é mentira... Ninguém que nasce em Três Corações pode chegar até onde ele chegou... Mas todo mundo falava. Lá na escola tambem falavam. Eu tenho saudades disso tudo. Até da escola.  Dos meus cadernos...  É... tua mãe não é burra não !

Tava no segundo colegial...

Teu vô brigava demais comigo...  Me achava bocuda. Respondona.

Tudo o que eu qeria fazer, não podia.

Tudo o que ele queria que eu fizesse, eu não queria. Ele brigava comigo, e gritava alto . Me xingava de palavrão.  E  eu não aguentava isso,  não.

Gritava mais que ele. 

Ele corria atrás de mim pra bater, mas eu corria mais que ele.

E eu de longe ria da cara dele. Ele ia ficando prá trás .

 Então ele parava num muro de uma casa, ou num poste, punha  a mão no peito e ficava lá, tossindo... tossindo... até escarrar !

Eu parava e ficava olhando ele. Ele ficava com os olhos vermelhos de tanto tossir.

Eu ia embora.  Ficava andando pela cidade, até dar a hora de ele ir para cama dormir. Então eu voltava pra casa.

Minha mãe me esperava.

Ficava lá, debruçada na janela até eu chegar.

Ela me protegia. Mandava eu não fazer barulho, pra não acordar o pai... Me dava um resto de comida, e me punha pra dormir...

Não era resto de comida... Era aquilo que tinha... Era a minha parte. Mas sempre pareceu resto... Nunca tinha nada naquela casa...
o pai era pobre... Trabalhava lá... nem sei direito no quê.

Até o dia que ele chegou em casa, caiu sentado na cadeira e falou pra mãe que tinha sido demitido...

Eu não sabia direito o que era demitido... Achei graça.... rí.

Eu nunca ví o pai tão louco. Ele agarrou o meu braço e me chacoalhou e empurrou pro chão. Ia me bater.

Minha mãe não deixou . Falou pra ele que eu era a mais velha, já tava moça, tinha dezoito anos e podia arranjar um trabalho pra ajudar.

O pai falou que eu era doida.

Falou que mulher doida não ajuda. Só atrapalha.

Falou para minha mãe que ia todo mundo embora daquela cidade e que ele ia me largar lá, só ia levar as crianças pequenas. Ele falou que não me entendia, e que nunca iria me entender.

A mãe me mandou pra cama. Eu não conseguia dormir direito.
Pedí pra Deus me ajudar a ser boazinha. A não judiar tanto do pai daquele jeito.

Rezei, rezei e dormí.

No dia seguinte, quando minha mãe passava o meu uniforme da escola, ela chorava. Me penteou os cabelos, me deu o almoço... tudo sem parar de chorar nem um minuto.

O pai tinha saído cedo...

Eu falei pra ela não chorar, que logo o pai iria arrumar outro emprego... Ela chorou mais ainda. Me mandou pra escola e falou assim...

- Vai filha... vai ser feliz.

Naquela hora eu não entendi direito por que minha mãe disse isso.

Quando eu tava voltando da escola, no fim da tarde, eu ví o caminhão do “Seu “ Cristiano descendo a ladeira da padaria...

Tava cheio de tralhas em cima e isso me chamou a atenção. Parei e fiquei esperando o caminhão passar.

Era uma mudança...

Olhei na boléia do caminhão e vi o pai e a mãe com as crianças no colo...

Gritei. Mãe !  Mãe !

Ela tava chorando lá dentro do caminhão. Ela me viu...

O caminhão passou. Ela virou pra trás e ficou olhando pela janelinha. Ficou assim... com o pescoço virado pra trás me olhando, me olhando, até o caminhão se perder de vista.

Eu pensei que estava sonhando... Corrí pra minha casa. Corrí o mais que pude.

Quando eu cheguei lá, tentei abrir a porta da frente.... Tava fechada. Corri prá trás, subí no tanque, olhei pela janelinha  e ví a cozinha toda vazia. Corrí para o lado da casa onde tinha a janela do meu quarto que tava quebrada, e olhei pra dentro. O quarto tava vazio... a sala tava vazia... Eu encostei no muro, larguei o caderno... os livros e caí sentada....

Tentava pensar alguma coisa... mas eu estava mais vazia que a casa...

Era um vazio doído... Era como se eu visse uma maçã, uma bela maçã... e quando fosse pega-la pra comer, não tivesse mãos...

Era bem isso... Eu estava vazia...

E só.

Eu só tinha eles na vida. Não sabia de tio, nem de  avó que pudesse me acolher.

Eu estava só.
A casa fechada.

Voltei para trás da casa.

Do lado do tanque tinha uma mala marron. Eu peguei a mala, abrí.

Eram alguns vestidos, algumas camisetas...calcinhas... minhas roupas... e algum dinheiro. Pra começar vida nova.

Acho que o pai não encontrou razão de levar uma garota que ele não iria entender jamais...

Eu fiquei meio perdida... Andei pra lá e prá cá, sem saber o que fazer...

Encontrei minhas amigas... Elas acharam o máximo...

E diziam que eu é que era feliz... poder viver do jeito que quizesse... Sem pai, nem mãe pra ficar enchendo o saco.

Alguém falou que iria para São Paulo...

E todas concordaram. E disseram que São Paulo isso, que São Paulo aquilo...

E eu, idiota,  acreditei...

O dinheiro que eu tinha deu pra passagem, pra comer uma esfiha no terminal do Tietê e pra pegar o metrô. Sobrou uma merrequinha dque eu guardei para comer outra esfiha quando tivesse fome, antes de arranjar um emprego.

Descí na estação São Bento. Era nome de santo . Podia ajudar.

Tudo me assustou nesta cidade... a velocidade do metrô, as pessoas correndo querendo chegar não sei onde, os prédios... a igreja de São Bento...  Entrei nela... Ela é maravilhosa... enorme.... cheia de bancos limpos... envernizados...

 

( FALA COM  O FILHO) . Calma !  O ônibus já vem... Não chuta que dói ! Aí então, filho, eu saí por esse  centro da cidade, andando prá lá e pra cá... pra lá e pra cá...

Tinha uns homens com placa de emprego penduradas no pescoço... Datilografa, secretária... copeira... sevente.... Qualquer coisa servia.

O homem da placa me mandou subir  no 10º andar do prédio.

Peguei um elevador.... dava friozinho na barriga quando parava...

Eu achei muito engraçado. Uma moça lá me atendeu. E me fez um monte de perguntas... Depois me perguntou da carteira de trabalho.
 Eu não tinha. Da carteira de identidade. Eu não tinha. Certidão de nascimento... eu não tinha...

Ela falou bem assim pra mim:- Minha filha se você nem nasceu, como é que pode arranjar emprego ? Vá providenciar os documentos e  depois volte aquí.

Arranjar documentos ?  Como ? Onde ?

Descí novamente pra rua. Tinha que perguntar pra alguém. Saí do prédio e continuei andando. Estava sem coragem de parar alguém numa cidade onde ninguém pára pra nada

tiburcio

Trecho do texto A FARSA DE TIBURCIO MALTA - UM BRASILEIRO NA CORTE LUSITANA (comédia)

 

 

LENTAMENTE SOBE A GERAL. MALTA ESTÁ NO PALCO VESTIDO DE BOBO DA CORTE E TEM PRESA AO CORPO UMA PARAFERNÁLIA DE MULTI-INTRUMENTISTA, COMPOSTA POR BUMBO NAS COSTAS, PRATOS NAS MÃOS, CORNETA OU GAITA NA BOCA, CHOCALHOS NOS TORNOZELOS E NOS PULSOS INTELIGADOS POR CORDÕES NOS PÉS E NOS BRAÇOS (SE FOR POSSÍVEL, INCORPORAR MAIS INSTRUMENTOS). OLHA PARA A COXIA, COMO SE ESPERASSE ALGUÉM. QUANDO ANDA FAZ BARULHOS INVOLUNTÁRIOS COM OS INSTRUMENTOS.
DE REPENTE NUM SOBRESSALTO ELE SORRI.

D. JOÃO –         (EM OFF) Isto mais parece o inferno, de tão quente!

CARLOTA JOAQUINA ENTRA, DE COSTAS OLHANDO PARA A COXIA, NÃO VÊ MALTA. CARLOTA TEM A CABEÇA COBERTA POR UMA FAIXA.

CARLOTA – Ai... ai... La Puta que me parió, Juan! Com todos los diablos! Tenias que huir hacia este culo del mundo?

MALTA ERGUE O BRAÇO E DÁ UM FORTE TOQUE NO BUMBO - CONGELAM –SE AS IMAGENS.

VOZ EM OFF - Para um melhor entendimento dos nossos espectadores monoglotas, vamos ligar a nossa tecla SAP de portunhol.

BARULHO DE FITA VOLTANDO - OS MOVIMENTOS DE MALTA E CARLOTA VOLTAM, CONTRÁRIOS AO DA ENTRADA. REINICIA-SE A CENA EM COM AS FALAS DE CARLOTA EM LEGÍTIMO PORTUNHOL.

CARLOTA – Ai... ai... Puta que me parió, Juan! Por quê diablos tinhas que hugir pra esto fim del mundo?

MALTA COMEÇA A TOCAR. DONA CARLOTA SE ASSUSTA. ENTRAM D. JOÃO, LOBATO (NOSSO LOBATO TEM O AR “MEIO GAY” – SEM MUITA AFETAÇÃO – O TEMPO TODO TRAZ UM LENCINHO COM RENDAS NA MÃO) E UM CARREGADOR, COM MALAS E UM ENORME BAÚ. ESTÃO SUANDO EM BICAS. TODOS COM AS ROUPAS ABERTAS E SE ABANAM ENORMES LEQUES NAS MÃOS.  PARAM TODOS EM TORNO DE MALTA QUE VAI SE EMPOLGANDO. CARLOTA JOAQUINA DÁ UMA SAMBADINHA. LOBATO OLHA COM DESDÉM E D. JOÃO OLHA FEIO. ELA DISFARÇA, PÁRA E OLHA PARA A COXIA COMO QUE PROCURANDO OS FILHOS. D. JOÃO FAZ UM GESTO DE CORTE DA MÚSICA, (ERGUENDO A MÃO ABERTA, FECHANDO OS DEDOS FAZENDO UMA ELIPSE NO AR – TIPO JÔ SOARES). MALTA PÁRA NA HORA. CARLOTA ESTICA O PESCOÇO OLHANDO PARA FORA, PROCURANDO OS FILHOS.

D. JOÃO –         Que porra é essa?
MALTA –           (COM POMPA E CERIMÔNIA, FAZENDO UMA MESURA EXAGERADA E SE ENROSCANDO COM OS INSTRUMENTOS- MALTA TÊM SOTAQUE BAIANO, MAS VEZ OU OUTRA FALA ALGUMA PALAVRA COM SOTAQUE PORTUGUÊS)  O Brasil deseja boas-vindas à família real!
CARLOTA -       Juan! Estos niños me dejam loca! Por que no viêm? Mira! Mira! Estan a zapatear em las marolas de la playa...  Ó Juan, estúpido, escucha-me ombre!  Onde se meteu aquella maldita aia? Que infierno! Que infierno!

D. JOÃO FAZ QUE NÃO OUVE E ESTALA OS DEDOS PARA LOBATO, QUE TIRA UM PÃO (TIPO ITALIANO) DE UM BORNAL, ARRANCA UM PEDAÇO, TIRA UM RECEPIENTE ABRE, ENFIA A MÃO TIRA UMA PASTA QUE ESPALHA NO PÃO COM A PRÓPRIA MÃO.  ENQUANTO ISSO, D. JOÃO VAI OLHANDO TUDO EM VOLTA, FAZENDO BIQUINHO DE CHORO. O BICO CRESCE CADA VEZ MAIS. CHORA. TODOS O ACODEM.

LOBATO –        D. João!
MALTA –           Alteza, o que foi? O que aconteceu?
CARLOTA -       Juan! Que mierda és êsto?
D. JOÃO –         (FUNGA, PASSA A MANGA DA CAMISA NO NARIZ) Nada, nada. Saudades de Lisboa!
TODOS - ·          Ah!

LOBATO ENTREGA O PÃO A D. JOÃO, QUE CHORAMINGANDO COME.  CARLOTA OLHA OS FILHOS E SAI.  LOBATO LIMPA A MÃO NA ROUPA. D. JOÃO, COMENDO, DÁ UMA VOLTA EM TORNO DE MALTA E OLHA OS INSTRUMENTOS. 

D. JOÃO –         Afinal, não mo respondeste. Que porra é essa?
MALTA –           De que porra especificamente fala Vossa Alteza Real?
D. JOÃO –         (APONTANDO PARA OS INSTRUMENTOS) Da porra dessa parafernália toda e desta... desta... (BUSCA UMA PALAVRA) música... “angelical”, que o senhor extrai da parafernália...
MALTA –           Ah! É que na verdade, o vice-rei queria contratar uma banda para recepcionar Sua Alteza real. Mas como aqui no Brasil não temos bandas... só temos bundas... e que belas bundas! (DÁ UMA GARGALHADA E UMA TAPA NAS COSTAS DE D. JOÃO, COM TANTA FORÇA QUE D.JOÃO DÁ UM PASSO A FRENTE – D. JOÃO PERMANECE SÉRIO – MALTA ENGOLE A GARGALHADA E CONTINUA) Então ele resolveu me contratar para uma performance... Uma banda (FAZ SOAR OS INSTRUMENTOS) pelo preço de um bunda. (RI SOZINHO DA SUA PIADA) Ah! Ah! Ah!
Saiba Sual Alteza Real, que se meus sonhos estiverem certos, a bunda brasileira será cantada em verso e prosa pelo mundo todo e ainda será um dia, cartão de visita nacional e produto de exportação. Por falar em cartão de visitas... Aqui está o meu cartão. (ESTENDE UM CARTÃO PARA D. JOÃO).

CARLOTA VOLTA DE COSTAS, ESTICANDO O PESCOÇO OLHANDO PARA FORA E GESTICULANDO INDIGNADA, APONTANDO PARA OS FILHOS. ORA ELA SE INTERESSA PELA CONVERSA, ORA PELOS FILHOS.

D. JOÃO –         (D. JOÃO PEGA O CARTÃO EO DEVOLVE INCONTINENTI ) Desculpe. Eu não preciso de uma bunda... digo, de uma banda... Enfim, não preciso de músico. (VIRA-SE PARA IR EMBORA)
MALTA –           (CORRIGINDO) Músicos! Como Vossa Alteza deve ter percebido, pareço, mas não sou um só. Sou muitos. Uma questão de... Virtuosidade.
D. JOÃO –         (VOLTA-SE, ENFASTIADO) Muito bem. Eu não preciso de músicos.
MALTA –           (ESTENDENDO NOVAMENTE O CARTÃO PARA D. JOÃO) Sim, entendo... Podes não precisar de músicos. Mas em algum momento o senhor vai precisar de mim. O excelso e múltiplo Tibúrcio Malta! Leia.

CARLOTA OLHA OS FILHOS. DE REPENTE SE ESPANTA. FALA, SEMPRE OLHANDO E APONTANDO EM DIREÇÃO AOS FILHOS.

CARLOTA -       Juan, estúpido! Mira-los!

D. JOÃO, SEM DAR ATENÇÃO A CARLOTA, PEGA O CARTÃO E TEM DIFICULDADE PARA LER. ESTICA O BRAÇO, APROXIMA DOS OLHOS, VOLTA E NÃO CONSEGUE LER.

CARLOTA -       São liderados por la loca de su madre! Mira! És una desvairada! Primeramente agarra-se ao mastro de la nave e de ningún modo se quiere desembarcar! (IMITA MARIA LOUCA)- Eu não quiero! Não quiero! (VOLTA AO NORMAL) Aora ella tambiém está allá, erguendo su vestido, a bailar e zapatear em las águas! Que madre maluca, ombre!

ENTREGA O CARTÃO PARA CARREGADOR QUE ESTÁ AO SEU LADO.

D. JOÃO –         Leia para mim.

CARREG. –   (SORRI POR SE SENTIR ÚTIL. OLHA PARA TODOS COM ORGULHO. LÊ COM DIFICULDADE – ENQUANTO ELE TENTA LER TODOS EM VOLTA SOFREM E FAZEM CARETA, ACOMPANHANDO A SUA DIFICULDADE)  Dê di dado érre ponto. Tê i Ti. - Bê u bu - rrrr – rrr - Bur  Tibur...Cê i Ci- Cê i ó - Ció . Tiburció. Ême á Ma... Maaa... éle  Maúl...(PRONUNCIA O L ACENTUADAMENTE LIGUODENTAL) Mal – Tê-a-ta! Maúlta. Malta. Dê érre ponto Tibúrcio Malta! (SORRI FELIZ OLHANDO PARA TODOS – VOLTA AO CARTÃO)  Cê-o Co... Cocô... cocô... cocô...

D. JOÃO, NERVOSO, ARRANCA O CARTÃO DO CARREGADOR E ENTREGA PARA LOBATO. O CARREGADOR SE ENCOLHE TODO.

D. JOÃO –         Que cocô o caralho! Tome Lobato! Leia vócê este caralho, digo este cocô... Digo, esta merda aqui!
LOBATO –        (LENDO) MBC – Dr. Tibúrcio Malta – Advogado, (PAUSA) Diretor Administrativo Financeiro, Consultor organizacional - encanador, bobo da corte, inventor, profeta, contador, sapateiro, músico, benz..
MALTA –           (CORRIGINDO) Perdão, músicosssss!
D. PEDRO -       Desculpe-me, deixei escapar o “s”.

MALTA OLHA PARA D. JOÃO E SORRI, JUSTIFICANDO.

MALTA –           Músicos... Virtuose! 10 em 1.
LOBATO –        (RETOMANDO A LEITURA) benzedor, jardineiro, mestre de cerimônias, esteta, cantor, alfaiate, massoterapeuta, ator, pai de santo e tudo o que se precisar mais. Leio búzios. Solução para todos os seus problemas, pelo melhor preço do mercado. (PARA MALTA) Esta última linha também?
MALTA –           Chifaiz favoire.
LOBATO –        Fazemos empréstimo com a menor taxa de juros.

MALTA OLHA PARA D. JOÃO E SORRI.

D. JOÃO –         Judeu, pois não?
MALTA –           Como descobriste? (PAUSA) Na verdade, ex-judeu. Cristão-novo. Sabe como é... A perseguição da inquisição...
D. JOÃO –         Há quanto tempo está no Brasil?
MALTA –           Há 25 anos... Safra bodas de prata... Envelhecido em tonel de carvalho! (DÁ OUTRA GARGALHADA OLHANDO PARA TODOS E TENTA DAR OUTRA TAPA EM D. JOÃO QUE CONSEGUE SAIR FORA A TEMPO)

NINGUÉM RÍ.  DONA CARLOTA OLHA AS SUAS UNHAS.

MALTA –           Na verdade nasci aqui. Sou brasileiro...
D. JOÃO –         Nem se nota. O sotaque é meio lusitano...
MALTA –           É que formei-me e fiz pós e MBA em Coimbra e também sou filho de portuguesa e de pai... pai...
D. JOÃO –         Já sei... pai holandês, pois não?
MALTA –           Bem, nesse quesito há controvérsias... A mãe tem dúvidas se o meu pai é também português ou se é baiano, paulista, carioca, indio ou holandês ou inglês.