maio 02, 2005
UMA VERDADE COM TOM DE MENTIRA

Se faz necessário que eu conte.
Passaram-se muitos e muitos anos com esta história martelando minha memória e poucos a sabê-la, pois a poucos nos atrevemos contá-la, receosos do escárnio que pudesse provocar.
Eu era pequeno.
Cinco ou seis anos quando tudo aconteceu. Morávamos em uma pequena vila de cinco casas, alinhadas à direita de um corredor, todo cimentado, um quintal comum a todas as casas. Três casas eram separadas das demais por degraus, ficando no fundo ao alto.
Nossa casa era a segunda ao meio, dividindo as casas de baixo das casas do alto. Era uma casa simples de quarto, sala cozinha e banheiro e uma área de serviço no lado de fora, com tanque e um telhado meia-água, onde se guardavam as tranqueiras.
Nossa família, então, contava com quatro pessoas. Minha mãe, meu pai, minha irmã e eu.
O fato se deu por ocasião do meu aniversário. Dia de Santo Antonio.
Pelos meus cálculos transcorria o ano de 1958. Ano de copa do mundo.
Na minha infância, durante muitos anos, nos três meses que antecediam o meu aniversário, meu pai reservava um dinheiro que deixava em casa, com recomendações à minha mãe para que comprasse papel de seda em quantidades e cores diversas. Assim era feito. À noite, após o jantar, tirava-se a mesa, limpava-se o tampo cuidadosamente para evitar possíveis focos de gordura e iniciava-se uma tarefa: a confecção de balões. Essa era uma das habilidades das quais meu pai se orgulhava.
Eu e minha irmã ficávamos à beira da mesa, extasiados, vendo-o dobrar as folhas e com destreza cortar as dobras com uma faca afiada. Depois de separar as diversas partes do balão como se fossem um enorme quebra-cabeças. Ele então pedia à minha mãe que preparasse uma cola que era feita à base de farinha de trigo e água. Então, aquele monte de papéis coloridos cortados em formas geométricas diversas, começava a ser juntado. Nossos dedinhos pequenos se colocavam a serviço de papai, espalhando cuidadosamente a cola quente nas beiradinhas de papel que seriam unidas umas às outras.
Daquela mesa saiam os carecas-de-padre, peões, mexericas e caixas. E assim se dava todos os anos.
Naquele ano em particular, meu pai ousou se superar. Prometia-nos uma surpresa.
Quando começou a confeccionar o último balão e juntar suas partes, não conseguíamos distinguir seu formato final. Mas quando foram juntadas as últimas partes, surgiu a obra-prima. O estrela. Um balão estrela. O protagonista. Literalmente a estrela da nossa história.
Na noite do meu aniversário, assim como nas noites de São Pedro e São João, os céus ficavam apinhados de balões. Naquela época, uma brincadeira entre as crianças, era o desafio de quem conseguia contar mais balões. Os lumezinhos no céu confundiam-se com a luz das estrelas.
- Você contou uma estrela, não vale!
- Não é estrela, não. Olha lá. Tá mexendo... tá andando.
Era assim. Meu aniversário sempre contava com as guloseimas típicas das festas juninas – pipoca, paçoca, doce de abóbora, pinhão, quentão, milho-verde, cajuzinho, doce de leite, curau.
Alguns dias antes do meu aniversário, minha mãe dedicava seus dias todos à cozinha, preparando essas delícias que no dia da festa desapareciam da mesa rapidamente.
Todos os vizinhos da vila eram convidados, além da família e amigos. No lado de fora da casa, os homens reuniam-se em torno de uma pequena mesa, onde se via além da cerveja que era consumida, sacos de estopa, velas, tesoura, uma vasilha com querosene, arame e fósforos.
Os homens revezavam-se nas tarefas: um cortava a estopa em tiras, outro transformava o breu das velas em raspas e as enrolava na estopa.Depois, fixavam as estopas no arame e mergulhavam no querosene. Estava pronta a tocha que serviria de alimento para conduzir aos céus o próximo balão. Instalavam a tocha na boca do balão. Ai então disputavam animadamente a primazia de acender a tocha.
Era atear fogo, aguardar que a tocha “pegasse no breu” e que o balão se inflasse com o ar quente e soltá-lo para ele ganhasse o céu.
Determinada hora da noite a temperatura começou a cair e as mães apresaram-se para agasalhar os filhos, temendo que se resfriassem. Os primeiros convidados começaram a despedir-se para ir embora.
- Ah, não! Ainda, não. – interveio meu pai – Esperem. Tenho uma surpresa reservada... – dizendo isso, correu para dentro de casa e voltou com ele nos braços.
O último balão! O estrela!
Ao desembrulhar e armá-lo para soltar, ouviram-se exclamações de espanto.
Era enorme! Colorido! Lindo!
Todos se aproximaram. Meu pai reclamou o direito de atear fogo à tocha. Depois, alguns instantes de apreensão. O balão encheu-se lentamente de ar quente e um a um os homens que seguravam as pontas do balão, foram soltando. Equilibando-o pela boca, meu pai esperava o momento de soltá-lo.
- Espera pegar força! – alguém exclamou.
- Ainda não!
- Solta!
- Solta agora....
Cada um queria dar o seu palpite. Meu pai concentrado. Sabia o momento certo. Foi largar o balão e acompanhá-lo ganhando rapidamente altura. Festa. Aplausos. Gritos. E o estrela foi voando suave céu adentro. E todos acompanhando. Vendo-o diminuir na distância. Virar um lumezinho e depois sumir.
Só então as pessoas começaram a ir embora. Beirava uma hora do novo dia quando começamos a nos preparar para dormir. Minha mãe ajeitou rapidamente a bagunça prometendo a si mesma acordar cedo para terminar de limpar tudo e arrumar a casa. Ainda vi quando o pai apagou a luz do quarto e o silêncio era quebrado somente pelos fogos de artifício de pessoas que ainda comemoravam o dia de Santo Antonio, por conta certamente de promessas casadoiras.
Por fim o cansaço venceu a todos e dormimos o sono dos justos.
O sol já entrava pelas frestas da janela, quando acordamos assustados com os gritos de minha mãe, tentando nos acordar. Ela estava nervosa e eufórica.
- Acordem! Rápido! Venham ver! – gritou, correndo para a porta da cozinha. Levantamos rapidamente e corremos todos atrás dela. Ao chegarmos na porta, presenciamos um acontecimento estarrecedor! Um balão caíra no quintal durante a noite. Mas não era um balão qualquer. Jazia no chão, com a parte interna suja da fuligem da tocha, o inconfundível estrela!
Acredite se quiser. É a mais pura verdade. O estrela foi e voltou.
Na noite seguinte, ele ganhou nova tocha e novamente foi colocado no ar.
Desta vez pra não voltar nunca mais.
Imagem: Festa Junina, de Yole Travassos.
Postado por Nelson Natalino em
08:41 PM