fevereiro 08, 2004

O CASAMENTO DE MARICOTA


bolo01_p.jpg

Xisto, o pai, tinha uma opinião formada sobre as filhas mulheres. Deviam ser criadas para o casamento. Enquanto sob a sua guarda, era imprescindível serem conduzidas e orientadas para essa finalidade. Assim fora com as outras filhas. Os estudos, a religião, as amizades, tudo deveria ser relegado a um segundo plano.

Beirando os sessenta, Xisto já casara as duas mais velhas. Sob a sua tutela, ainda restava a caçula. Chamada Mariana de pia batismal, desde pequena ganhou das irmãs o apelido carinhoso de Maricota, que carregou vida fora.

A menina debutara há dois anos.
A festa, pois houve sim uma grande festa, realizada nos salões aristocráticos da Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, extrapolou na ostentação, visando justamente atrair entre os presentes, selecionados a dedo, um pretendente que se encantasse com a menina e conquistasse o seu coração.
Mas esse esforço foi vão. Ninguém se interessou por ela, nem ela tampouco por ninguém, muito mais preocupada em dançar e se divertir com as amigas, contrariando as recomendações do pai, para que se ativesse na busca de um bom partido. O pai ressentiu-se disso, entretanto relevou.
Foram-se a festa e o dinheiro.
Agora, Maricota já estava prestes a se formar.
Era uma menina esperta. Caminhava rapidamente e tinha os gestos curtos e ágeis. Quando andava, graciosamente seus cabelos loiros e leves, balançavam em ondas suaves ao sabor do deslocamento do ar. As pernas curtas e grossas e os seios fartos bem distribuídos no tronco pequeno lhe concediam ainda um certo ar de vitalidade.
A mãe bem que tentou habilitar a menina lhe ensinando tudo, mas não poderia se dizer que houvesse logrado torná-la prendada, muito embora Maricota cuidasse com bastante esmero da limpeza e arrumação, deixando a casa por assim dizer, “um brinco”. Na cozinha, porém, Maricota era um desastre. O arroz queimava ou empapava. Ora salgava em demasia, ora esquecia-se de colocar sal. Carregava no tempero e errava as medidas. Tinha mão pesada e desandava a maionese. Enfim, uma verdadeira negação, dizia a mãe. – Vai casar como? –perguntava aflita.
O pai, austero, estabelecera um limite. Queria a filha casada antes dos vinte e um. Vivia fustigando a mulher com perguntas e indiretas.- Dá duro nela, Cleonice, senão.... - A menina já arrumou namoradinho? - Como é que vai ser, Cleonice?
Invariavelmente, Maricota ouvia do seu quarto o pai rezingar quase todas as noites.
Certa ocasião, passados alguns meses, Cleonice começou a notar que Maricota andava no mundo da lua, ria a toa e os olhinhos azuis brilhavam sempre como fossem duas lindas turmalinas.
Agora, enquanto lavava a louça do almoço, conversava animada com a mãe e invariavelmente, nos acontecimentos que contava, vinha à baila o nome de um rapaz. Alceu.
O nome, sempre citado no diminutivo pela filha, denotava o grau de intimidade entre os dois. Era um tal de Alceuzinho pra cá, Alceuzinho pra lá, Alceuzinho falou, Alceuzinho isso, Alceuzinho aquilo.
Perguntada, a princípio jurou de pés juntos que eram apenas amigos. A mãe não deixou que o assunto esfriasse e foi conquistando a confiança de Maricota aos poucos até que por fim a menina confessou. Estava apaixonada. Na verdade, precisava de uma confidente pois não agüentava mais guardar segredo sobre os seus sentimentos. Pediu à mãe que nada revelasse ao pai até que ela tivesse plena certeza de que seu amor não era apenas uma paixão passageira. Não seria aconselhável que, ante a obsessão do pai, começasse um namoro que não fosse dar em casamento. Seria inadmissível.
Concordaram assim em nada revelar.

Nos jantares, Xisto não perdia a oportunidade de cutucar mãe e filha: - Maricota, você que cozinhou hoje, né?
Sim, papai.
Bem se vê. Arroz grudado, salada sem tempero, feijão insosso e bife apimentado.
A menina, humilhada, limitava-se a baixar os olhos. Sentia correr no rosto uma lágrima solitária, que colhia com a ponta dos dedos e resignada aceitava a humilhação.

Xisto, quase beirando o sadismo completava, meneando a cabeça. – Desse jeito, não há de casar nunca, Cleonice.

Os dias foram passando e a menina se mostrava cada vez mais apaixonada pelo namorado. Contava à mãe todos os dias dos encontros que aconteciam após as aulas, quando saiam de mãos dadas pelas ruas do bairro, ela e Alceuzinho. Certa noite, na ausência do pai, que viajara a negócios, as duas esticaram a conversa noite adentro. Nessa ocasião, Maricota revelou uma novidade:

Alceuzinho falou em noivar e casar em um ano, mamãe. Disse que quer falar com o papai.

Cleonice sorriu. - Pois o convide para jantar amanhã. Seu pai volta de viagem à noite...
Posso, mamãe?
Claro que sim. Eu converso antes com seu pai por telefone.
Mas não diga nada sobre o assunto ainda... Diga que é um amigo... Será uma surpresa, está bem?
Não sei se é uma boa idéia...
Claro que é, mamãe... ele quer tanto isso...
A mãe pensou por alguns instantes, por fim concordou.
Vai ser melhor – insistiu a menina – sabe, mamãe, eu digo isso principalmente por um detalhe... Eu nãoi sei se você ou o papai tem algo contra mas o Alceuzinho...
Nesse momento foram interrompidas pelo toque do telefone. Cleonice atendeu: - Alô? Oi, Zilda, Como vai? Só um momento – Tapou o bocal do telefone e olhou para Maricota: - tudo bem, filha, detalhes a gente vê depois, tá? Vai dormir, vai...

Este papo aqui com a Zilda demora... a irmã dela foi operada hoje. – dizendo isso, voltou imediatamente à ligação – alô...

Mas mamãe...
Cleonice sinalizou com a mão direita para que a filha fosse embora. E voltou a conversar com a amiga.

Maricota foi para a cozinha, abriu a gaveta da dispensa e de lá sacou o volumoso “Dona Benta” para selecionar o cardápio do jantar do dia seguinte. Foi sua leitura daquela noite. Diga-se de passagem que a ansiedade não a deixou dormir direito por quase toda a noite.

Ao sair da escola Alceu a esperava, como sempre.
Você me ama mesmo, Alceuzinho?
Claro, Mari... Claro que sim. Já te disse.
E aquela história de casamento? É balela? Brincadeira?
E eu ia brincar com uma coisa dessas, Maricota? Nunca! Claro que não. Vamos casar, sim... Um ano é o bastante para construir nossa casinha e comprar a mobília básica...
Sério? Verdade mesmo? Jura?

Alceu cruzou os dedos sobre os lábios.

Por tudo o que há de mais sagrado..

Combinaram que o rapaz iria jantar na casa dela. Maricota deixou bem claro uma coisa: Se Alceu não quisesse, não seria necessário ainda pedir sua mão. Iria visitá-la como amigo. Para a família se acostumar, dissera Maricota. Mas se de repente se sentisse à vontade...

A menina chispou logo para casa. Encontrou a mãe no portão, de saída. Zilda, a amiga, esperava com a porta do carro já aberta.

Onde você vai, mamãe?
Temos que visitar a Zélia, irmã de Zilda, no hospital –depois de piscar para a filha, com um sorriso nos lábios, perguntou – E aí? Ele vem?
Vem, mamãe... mas eu precisava conversar sobre aquele detalhe....
Minha filha, nós estamos com pressa. As visitas no hospital têm horário, sabe como é... na volta conversamos. Prometo. Você se vira na cozinha, né?

Maricota aquiesceu com um movimento de cabeça. Ficou olhando enquanto o carro se afastava, entrou, pegou o livro “Dona Benta” e depois de benzer-se fazendo o sinal da cruz, respirou fundo e começou a preparar o jantar, seguindo as receitas com toda a atenção do mundo.

Cleonice demorou mais do que o esperado no hospital. Quando chegou em casa, deparou com aquele rapaz alto no portão, procurando pela campainha.
Pois não?
Ah! Boa tarde, senhora... meu nome é Alceu. Eu sou... sou... amigo... de Maricota...
Ah! Então você é o Alceu! – exclamou Cleonice, deixando transparecer um repentino constrangimento – Vamos, vamos entrar, Alceu... Você é amiguinho de minha filha, não é? – acompanhou o rapaz até a sala, fê-lo assentar-se e pediu para que aguardasse.

Entrou na cozinha, encontrando Maricota atarefada na conclusão do jantar. Aproximou-se e ralhou entre-dentes sobre o ombro da filha: Detalhe? Que detalhe, hein? Faça-me um favor.

O que você está falando, mamãe?
Cleonice apontou a sala com o polegar.
Ele está ai, mamãe?
No sofá da sala.

O coraçãozinho de Maricota teve um sobressalto e disparou imediatamente. A menina arrancou o avental. – Mamãe daqui a doze minutos desligue o forno, por favor...
Maricota! – chamou em tom baixo, porém rispidamente a mãe. Quando menina se voltou ela concluiu com ar de indignação – Um detalhe?
Maricota deu com os ombros, ergueu as sobrancelhas e deslizou apaixonada para a sala onde foi ter com Alceu.

O rapaz fora apresentado a Xisto como um amiguinho que viera fazer uma visita à Maricota e convidado, ficara para o jantar. O pai quando soubera que fora ela que a cozinheira do jantar, torceu o nariz, principalmente porque o cardápio era ousado.

Sufflé de queijo de entrada e como prato principal Filet au Poivre, um prato sofisticado, preparado ao molho Rôti e flambado em conhaque. De acompanhamento, legumes cozidos e puxados na manteiga e o que era mais temível... um arroz simples.

O jantar foi servido sob olhares apreensivos, mas à medida que cada um ia se servindo e provando, dissipava-se o receio. O sufflé suavemente delicioso, o filé um deleite e o arroz... divino – soltinho, e saborosamente entremeado com salsa picadinha. A menina atrevera-se até a salpicar açafrão no arroz para conceder um colorido especial ao arroz.
Fez-se silêncio na mesa. Os talheres buscavam as saborosas delícias preparadas por Maricota. O primeiro comentário, foi do surpreso Xisto: - Maricota, a comida está deliciosa. Parabéns:
A mãe, sorrindo, olhou para ela com olhos de orgulho. – Deliciosa, não. Fantástica. Perfeita. Não é mesmo Alceu?

O rapaz, que em toda a sua vida nunca saboreara um prato preparado com tanto esmero, engoliu rapidamente, para responder concordando.

De sobremesa Maricota serviu torta de limão. Lambuzaram-se. Aproveitando o ensejo, Xisto disparou o chavão:- Òtimo jantar. Já pode até casar, minha filha.

Alceu olhou para Maricota e julgou o momento propício. Xisto acabara de dar a deixa que ele esperava. Então, com a voz indecisa o rapaz arriscou, disparando a frase decorada, de uma só vez: - Pois é “seu” Xisto, eu queria exatamente aproveitar para pedir autorização para namorar- a sua filha, noivar e casar daqui a exatamente um ano. O senhor pode anotar ai... 10 de Março.

Houve então um lapso de tempo em que o silêncio emprestou ao ambiente um clima de suspense. Um momento dramático.

Xisto ficou olhando estupefato nos olhos de Alceu, enquanto mastigava o último pedaço de torta. Depois suas faces foram enrubescendo, seus olhos pareciam saltar da órbita, os lábios tremiam transformando sua feição, concedendo-lhe uma ar colérico. Engoliu com dificuldade.

O quê? O senhor ponha-se no seu lugar. Onde já se viu?

Maricota gelou. Permaneceu com os olhinhos arregalados enquanto o pai concluia: - Maricota... Ponha o seu braço ao lado do braço dele. – A menina assustada obedeceu. – Olhe, senhor Alceu. Olhe bem. Veja se há diferença. Nota? Não dá liga. Não é possível. Cleonice me disse que eram apenas amigos. Até aí, tudo bem. Mas namorar... casar? Tenha paciência, senhor Alceu. Veja se o senhor se enxerga. Com licença. Já acabei o meu jantar.
Alceu tentou ainda conciliar: - Mas sr. Xisto...

Passar bem. – dizendo isso, Xisto se retirou deixando um mal-estar pesando em toda a sala. Maricota desabou em prantos. Alceu perdido, não sabia o que fazer. Por fim, decidiu: - Desculpem. Eu vou embora. Depois te ligo, Maricota. – E assim, foi saindo cabisbaixo – Desculpem... desculpem...

Tão logo notou a saída do rapaz, Xisto voltou enfurecido.

-Que papel, hein Maricota? Sim senhora! Tanto tempo para arranjar um partido e me traz aqui um negro?
-E daí, papai?
Como e daí? Como e daí? É um negro! Não quero minha filha casada com um negro! Nunca! Só sobre o meu cadáver! Ou melhor, nem morto! Nem morto, entendeu bem? Acho que volto do além so para...
Mas papai...
Chega, Maricota! Não quero mais ouvir a tua voz.

E assim foi. Dito e feito. Xisto nunca mais ouviu a voz de Maricota naquela casa, nem em lugar nenhum. A moça perdera naquela noite o encanto pela vida e a voz se fora junto.

A partir daí, Xisto desabou sobre Maricota toda a sua ira. Por dá cá aquela palha, ele destratava a menina, delegando-lhe as mais humilhantes tarefas. De limpar diáriamente do vaso sanitário, até servir a mesa a todos, inclusive as visitas antes de sentar-se para comer. A menina por sua vez, fazia tudo de malgrado.

Quebrava pratos e copos, derrubava bandejas, entornava o suco... A casa por conta disso tudo, se tornou um inferno.
.
Seguiram nesse clima de animosidade que somente era abrandado pela falta de voz de Maricota. Mas nem mesmo isso Xisto perdoava: - Essa mudez é falsa. É uma fuga. Há de nos servir a mesa e limpara o banheiro até a morte. A Nossa ou a dela.

Seis meses passaram sem que se ouvisse a voz de Maricota.

Maricota, fala com a mamãe.... – dizia carinhosamente Cleonice ao servir o leite quente à noite para a filha.

Maricota até que tentava. Tremia o queixo, premia os lábios, esboçava a tentativa e nada. Nem sequer uma sílaba. Uma vogal sequer pronunciava. Depois desandava num choro inconsolável ao qual dedicava cinco ou seis horas ininterruptas, todas as vezes que vivia essa tentativa frustrada.

Na escola Cleonice questionara os funcionários, os amigos e professores. Nada. Calara-se geral. Muda. Assim era Maricota em todos os lugares. Limitava-se a viver. Afastava-se de todos. Cozinha, então, nunca mais! Depois daquele fatídico jantar, não fritou nem mesmo um ovo.

E Alceu? Pelo que informaram, evaporou-se. Nos primeiros dias, Maricota ficara sentada na frente do telefone com olhos grudados no aparelho aguardando ansiosa o telefonema prometido. Depois, desistiu. A escola passou a ser sua atividade mais importante. No final das aulas sempre guardava dentro do peito a expectativa de que Alceu a estaria esperando. Mas não. Tal qual sua voz, o moço também desaparecera.

Concluiu mesmo nesse ano o curso profissionalizante de farmacologia, empregando-se logo a seguir numa botica especializada em manipulação. Mas continuava muda. Nada fazia com que emitisse nem mesmo um mínimo som articulado que acendesse a chama de esperança de sua recuperação.

A mãe tentara de tudo. Fonoaudióloga, otorrinolaringologista, curandeiro, pai-de-santo, benzedeira, o diabo. Nada.

No trabalho a menina era eficiente, atenciosa e competente. Conquistou assim a confiança a todos. Mas limitava-se ao relacionamento estritamente profissional. Recebia convites para festas, passeios, até missas e cultos. A todos recusava com leves movimentos de cabeça, um sorriso forçado e olhos voltados para o chão. Evitava estar com as pessoas. Quando dava sua hora, levantava-se, tirava as luvas e imediatamente jogava-se no ônibus a caminho de casa.

Num desses dias, estava entre as drogas aviando receitas para compor os remédios, quando a gerente da loja entrou no laboratório:
Maricota... tem alguém querendo falar com você no telefone... Eu disse que você não fala, mas ele insistiu, disse que basta você ouvir... Você vai atender?

Emitindo um som anasalado parecido com alô, ela atendeu. Quando ouviu a voz do seu interlocutor, seu rosto imediatamente se iluminou. Pela primeira vez seus colegas viram um sorriso em seu rosto. Uma das meninas, depois, jurava até que a ouvira dizer – eu te amo – antes de desligar e que também a ouvira cantarolar no banheiro na hora de ir embora.

A partir desse dia, todos os dias era a mesma coisa. Tornara-se um hábito aquela ligação por volta das quatro da tarde. Era um divisor de águas. Pela manhã Maricota chegava, fruto da desavença com o pai, com a cara amarrada, de mau-humor, não olhava para ninguém. Pegava as suas receitas no escaninho e punha-se a trabalhar. Levantava-se dalí somente para o almoço.

Já depois do telefonema, sorria para as pessoas, se interessava pelas conversas das colegas, ia até a salinha do café, parecia até querer conversar.
Num desses dias, ao desligar o telefone que ficava na parte frontal da loja, foi chamada pela balconista que atendia uma pessoa.

Maricota, a fórmula da Dona Silvana está pronta? Está em nome do marido dela sr. Alfredo Souza Agres.

Maricota sinalizou que sim com a cabeça e correu para dentro, voltando instantes depois com o frasco de remédio nas mãos. Entregou para a balconista, mostrando-lhe a receita e apontando para um dos componentes do remédio.

Ah! Dona Silvana, ela está dizendo para tomar cuidado com a posologia determinada pelo médico. Somente uma capsula por semana. Essa fórmula tem um componente muito perigoso e em doses com maior constância pode até matar. A dose da sua fórmula é pequena, mas não custa nada se precaver.

Maricota sorriu para a moça e voltou para dentro. Ao chegar, deparou com o frasco que continha o componente citado sobre a sua mesa. Tomou o frasco em suas mãos e olhou para ele pensativa. Depois olhou para os lados e vendo que ninguém a observava, colocou o frasco dentro da bolsa.

Só mesmo em casa Maricota não alterava seu comportamento. Chegava taciturna, ia para o seu quarto, habitualmente tomava um banho, vestia uma roupa caseira, assistia ao jornal na TV, depois servia o jantar, jantava e se recolhia novamente ao quarto para ler Nelson Rodrigues, seu autor predileto ou para assistir a um filme. Detestava novelas.
Rotina.
Houve um período de trégua na desavença entre Maricota e Xisto. Foli quando ele adoeceu. Passava as noite em claro, padecendo de fortes cólicas estomacais. Nesse período, até contou com a ajuda dafilha, que lhe trazia da botica remédios que lhe aplacavam as dores, permitindo que dormisse.
Na gastroclínica fez todos os exames necessários e afastou-se a possibilidade da úlcer que que o médico a princípio supunha existir. Tampouco diagnosticou-se algum mal que pudesse estar causando esse sofrimento à Xisto. O médico lhe receitou um remédio que forneceu a Xisto, que deveria ser tomado aliado a uma dieta com alimentação leve, marcando seu retorno para dalí a uma semana. A primeira dose do remédio foi tomada no próprio consultório.
Aparentemente o remédio atuara de forma positiva no organismo de Xisto. Na semana seguinte passou bem, sem cólicas e se alimentando de acordo com a dieta. Retornou ao médico que o liberou para voltar a alimentação normal.

Xisto voltou para casa e a crueldade com que tratava Maricota voltou com ele, só que agora redobrada. A menina sentiu isso Estabeleceu-se entre eles o ódio no olhar. Como um decreto. Como um hábito. Odiavam-se obrigatoriamente.
Além do ódio, Xisto sentia mais fome do que nunca.

Naquela noite, quando Maricota chegou, a comida já estava pronta, no fogão.
Como sempre, parte de sua obrigação, ela serviu os pais.
Jantaram em silêncio. Xisto parecia agora saborear mais a comida. Comia e mastigava lentamente o alimento. E dormia sem sentir as dores da cólica. Durante a madrugada entretanto, Maricota acordou com sua mãe batendo na porta do quarto, desesperada. Xisto voltara a passar mal. Desta vez, muito mal.
Foram rapidamente para um hospital, onde Xisto já chegou desfalecido. Duas horas depois, já quase 6 da manhã, receberam do médico, a notícia de sua morte. Sofrera duas paradas cardíacas e fora reanimado. A terceira entretando, fora fatal.

No velório muita gente. Parentes e amigos. Todos olharam para a porta quando Maricota chegou. Seguiram seus passos, aproximando-se do corpo do pai. Maricota parou. Olhou o pai e todos os presentes ouviram alto e em bom tom quando ela falou: - Filho da puta! Desgraçado: - depois, virou-se e saiu com a mesma calma com que entrara. Cleonice tentou alcançá-la mas Maricota tomou um taxi e saiu rapidamente de lá.

Cleonice chegou em casa depois do enterro, abriu a porta da sala e deu de cara com Alceu sentado no sofá com o controle remoto da tv nas mãos, comendo pipocas. Maricota veio da cozinha.
-Mamãe! Olhe,- disse feliz, mostrando o dedo anular para a mãe - casamos hoje e o Alceuzinho veio morar aqui...
Cleonice sentiu as pernas bambearem. Sentou-se numa cadeira e olhou para o calendário.
03 de Março.


© by Nelson Natalino - fevereiro 2004 Todos os direitos reservados. Proibida a publicação sem autorização expressa do autor

volta
sinaleiro blogger
sinaleiro weblogger
www.natalino


Postado por Nelson Natalino em 04:29 AM