novembro 08, 2003

ROBERTO - O TÍMIDO

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Tímido. É assim que poderia se definir Roberto. Tanto que chegava aos 22, virgem. Sem nunca ter tocado num peitinho, numa coxa, nada.
Quando garoto, fugiu do troca-troca, assim como o diabo foge da cruz.
Aos domingos, quando ia confessar seus pecados ao padre, era uma tortura para ambos:
- Perdão, pois eu pequei padre.
- Quais pecados cometeste, filho?
- Desobedeci minha mãe.
- Sim...
- Xinguei o Bentinho e discuti com o Tatá no futebol.
- Sim...
Silêncio.
- O que mais, filho?

- Só, padre.
- Nenhum pensamento mau?
- Não.
- Roubou?
- Não.
- Molestou alguma moça?
- Moça?
- Sim, moça, mulher....
- Não, não.
- Pensamentos obscenos?
- Não.
- Masturbação?
- O quê?
- Nada mais que se lembre?
- Não, padre.
O padre coçava a cabeça, pois nem achava que pudessem ser considerados pecado as coisas que o menino Roberto lhe confessava. Dava-lhe como penitência uma Ave Maria e um Pai Nosso, mais para fazer constar.. Era uma forma de fazer com que o menino orasse. Que tivesse um momento de reflexão.
Crescera assim. Atravessara assim a puberdade e chegara à maturidade assim. Imaculado.
Nenhum desdouro, penhor da sua timidez.
Era bonito, sim, uma beleza formal, quase comum. Mas detinha o que se pode chamar de um leve charme. Talvez até motivado pelo seu próprio acanhamento. Ruborizava sempre, mesmo ao receber o mais leve e discreto olhar feminino. Ao descobrir isso, até as meninas mais recatadas atreviam-se a lançar sobre o pobre infeliz, os encantos fêmeos que dispusesse, somente para provocá-lo.
Diz-se que mulher é um bicho pertinaz e sabe muito bem supliciar homens retraídos, com as mais sórdidas tentações, de um olhar lascivo à uma provocante abertura de pernas que permita entrever a calcinha marcada por pêlos pubianos.
E Roberto era vítima constante dessas e de outras cruéis armadilhas femininas. Porém essa sua debilidade vencia qualquer tentativa de aventurar-se sequer a arriscar um olhar mais prolongado que pudesse chegar a excitá-lo, ou mesmo empolgá-lo a ponto de atirar-se a um desses convites que veladamente as mulheres viviam a fazer-lhe.
Roberto acaba de bacharelar-se em Administração de Empresas e nem mesmo a vida acadêmica conseguira extirpar o mal que o afastava do convívio social comum a todos os mortais.
Sua família, embora não fosse de posses, conseguira sustentar-lhe os estudos até a sua formatura, para que a partir de então Roberto procurasse um emprego e iniciasse sua vida profissional.
Assim se fez. Tão logo se formou, Roberto consultou os classificados em busca de uma colocação. Enviou seu currículo magro à todas as empresas que julgou, pudessem contratá-lo.
Depois de 15 dias recebeu o chamado de uma delas. Era uma empresa de segurança. Sua entrevista fora marcada com o Sr. Percival, presidente e proprietário da empresa.
No dia e hora marcados, Roberto estava presente, barba escanhoada, sapatos cuidadosamente engraxados, terno em alinho, camisa engomada e gravata nova.
Ao chegar na empresa notou a informalidade e modéstia no trajar das pessoas. Disfarçadamente, tirou a gravata e guardou no bolso do paletó. Sentiu-se melhor, mas não ao ponto de afastar a maldita timidez que persistentemente resfolegava no seu ego, baixando a sua auto-estima e reduzindo-o a um reles candidato ao cargo de estafeta.
Foi encaminhado à ante-sala da Diretoria e atendido por uma simpática, sorridente e atenciosa secretária – Taninha.
Quando por fim a porta da sala do Sr. Percival se abriu, parecia que abria-se à sua frente a porta do inferno. Belzebu estava ali em pessoa aguardando que Roberto se dirigisse a ele.
A secretária notou o momento de indecisão: - Pode entrar Roberto.
O rapaz levantou, sentiu as pernas bambearem e a vista escurecer. Queria sair dali. Não queria falar com ninguém. Não queria aquele emprego. Não queria aquele patrão. Queria estar no aconchego do lar, tomando chá com torradas e recebendo cafunés de sua mãe.
A secretária sorriu-lhe. Ele retribuiu rapidamente o sorriso e baixou os olhos. Percival adiantou-se e estendeu-lhe a mão: - Vamos entrar, Roberto.
Roberto sentiu a mão gorda, quente, suada e pesada de Percival. Notou-lhe os cabelos pretos tingidos com tinta da Barbearia Paratodos do Brás. A gordura do corpanzil do homem excedia o tamanho da camisa, escapando pelos vãos entre os botões. Entraram na sala. O odor de cigarros que exalava de sua boca enquanto falava, estava impregnado em cada centímetro da sala decorada por armas antigas. Sentiu nojo da mão, do cheiro, dos dentes amarelados que se apresentavam num sorriso tosco e em desalinho. As paredes recebiam também a nuança amarelada artificial da nicotina curtida.
Um grande cinzeiro redondo de vidro, sobre a mesa, repleto de pontas de cigarros, completava o quadro bizarro.
Na entrevista, Roberto saiu-se mal. Com o estômago revolto pela ânsia constante, chegara quase a perder a voz.
- Hoje, Roberto, - disse Percival calmamente, após acender o terceiro cigarro durante os 15 minutos da entrevista – o que eu posso lhe oferecer é uma vaga de almoxarife.
Tenho lá no almoxarifado além de todos os materiais de escritório, de limpeza e de manutenção, o fardamento e as armas utilizadas pelos seguranças. É necessário que haja controle de tudo, entrada e baixa de estoque, análise de consumo, limpeza das armas, enfim, muito trabalho, como é o seu primeiro emprego, é uma excelente experiência. Depois disso, se você se sair bem, veremos outras oportunidades melhores, é claro, com promoção e aumento de salário. Temos assistência média, vale-refeição, cesta básica...
Acertaram-se e combinaram um salário satisfatório.
Percival chamou a secretária e comunicou a contratação, recomendando que ela o encaminhasse ao RH. Apertou novamente a mão de Roberto.
-Ah! Roberto, - completou – Uma coisa importante. A limpeza e manutençâo das armas são as maiores responsabilidades do almoxarifado.
- Mas eu...
- Não se preocupe. Você será orientado. O Custódio foi sub-tenente do exército. Sabe tudo. Ele será o seu instrutor.
A moça conduziu-o então pelo corredor
- Então você começa hoje mesmo – disse com voz melosa – Ah! Desculpe. Nem me apresentei, - disse parando no meio do corredor - Sou Tânia, secretária do Sr. Percival - dizendo isso, apertou levemente a mão direita de Roberto, olhando-o fixamente nos olhos.
Taninha sofria de um distúrbio chamado exacerbação de libido, mais conhecido como compulsão sexual. Em função disso, dos cento e trinta e sete seguranças da empresa cento e trinta e cinco já haviam provado seu apetite sexual. Os outros dois eram homossexuais e viviam em regime de concubinato, amando-se loucamente. Não deram a mínima chance para que Taninha se aproximasse deles. Ela tinha por tudo isso, um apelido sui generis – Putaninha -. A secretária de todos.
Aquele olhar para Roberto dissimulava suas segundas intenções. Disso, só ela sabia por enquanto.
Pela primeira vez em toda a sua vida, Roberto conseguira não dessviar o seu olhar. Os olhos de Taninha invadiram a virgindade do olhar dele e atingiram em cheio seu coração. Um gostoso frio repentino percorreu toda a espinha do moço, indo alojar-se em movimentos circulares na altura do estômago. Sentiu ainda seu órgão sexual enrijecer rapidamente.
Tudo durou um breve instante. A suavidade da mão dela ainda acariciava a mão dele, quando ele fechou os olhos e balançou a cabeça para espantar essa coisa desconhecida. Taninha, experiente, percebeu a conquista.
Quando voltava de sua tarefa, Taninha encontrou Madalena de passagem:- Aê, Taninha, carne nova e fresca, hein? – Taninha sorriu, deu com os ombros, ergueu as sobrancelhas e seguiu.
No dia seguinte, logo que chegou, Roberto foi conduzido ao seu local de trabalho. A empresa estava instalada em um prédio de três andares. O almoxarifado entretanto, ficava no porão. Uma ala escura das intalações. Caos. Assim poderia se definir a situação que Roberto encontrara o departamento pelo qual iria responder a partir daquele dia. Uma completa bagunça. Todos os materiais e suprimentos espalhados, amontoados, perdidos. O rapaz do RH ao deixá-lo lá, disse apenas duas palavras: -Boa sorte. Roberto sentou-se em sua mesa pela primeira vez. Pó.
A porta se entreabriu e alguém colocou o rosto no vão. Era Custódio, que conforme fora combinado, viera lhe dar instruções sobre a limpeza e manutenção das armas. Roberto iria aprender tudo tão rápido que surpreenderia a todos com a qualidade da manutenção que dispensaria as armas. Todos que as utilizavam iriam dizer que nunca fora assim. Nem mesmo quando o próprio Custódio cuidara desse afazer. Com Roberto, todas as armas receberiam cuidados quase maternais, inclusive e principalmente a arma 343 uma pistola Luger 7.65, que pertencia a Percival.
Durante as semanas que se seguiram, Roberto encarou a tarefa de colocar em ordem tudo, como o desafio da sua vida. Arregaçou as mangas e pôs mãos à obra. Separou o misturado, ergueu o caído, limpou o sujo. Etiquetou, organizou, inventariou, registrou, relacionou e passou a controlar. Todos os funcionários da empresa vez por outra, passavam por lá para ver o que estava acontecendo. Nunca, ninguém trabalhara tanto e com tamanho afinco como Roberto.
Taninha, invariavelmente no final da tarde, passava por lá para se despedir. O coração de Roberto esperava ansiosamente esse momento e disparava, em alegria ao vê-la. Depois da segunda semana, quando um dia Roberto foi procurá-la para pedir que a mulher da limpeza fosse ajudá-lo a manter asseado o ambiente, Taninha passou a visitá-lo duas vezes ao dia. No final da tarde, antes de ir embora, sentava-se sobre o balcão e cruzava as pernas roliças oferecendo-se a ele. Roberto descobrira enfim o tesão, mas nunca ousara masturbar-se. Vez por outra acordava pela manhã banhado em seu próprio sêmen e jogava os lençóis sujos no tanque para que a mãe não lhe notasse os deslizes.
As visitas de Taninha eram sempre repletas de conversas prazerosas, por vezes contidas pela persistente timidez de Roberto.
A moça, entretanto, já esgotara todas as possibilidades para reprimir sua impetuosa compulsão. Decidira que naquele dia iria assediá-lo.
No final da tarde, quando todos foram embora, Roberto e Taninha permaneceram conversando no almoxarifado. Em dado momento Taninha trancou a porta.
Quando Tião, o vigia noturno passou por lá e girou a maçaneta percebendo a porta trancada, imediatamente deduziu o lógico.
- Inté que demorô. – pensou retirando-se para o andar térreo onde era o seu posto Deveria passar de duas em duas horas marcado seu relógio com chaves especiais em cada departamento. Nas duas primeiras rondas, não chaveou o almoxarifado. Lá dentro, Taninha usara toda a sua experiência para reduzir Roberto a um trapo. Fizera com ele coisas que por vezes a mais reles prostituta se recusaria fazer. Depois, o abandonou lá. Quase desacordado no chão. Nessa noite, já em sua casa, Roberto não conseguira pregar os olhos. Trazia tatuada em sua mente a imagem daquela mulher cavalgando nele e lhe dando prazer. Ela o fizera sentir-se um garanhão puro-sangue.
O relacionamento dos dois continuou assim, com encontros cada vez mais freqüentes, até tornarem-se diários. Inclusive aos finais de semana, agora se encontravam, como verdadeiros namorados, para passeios, sessões de cinema e bigmacs, com direito a esticadinhas para hoteis.
Nos dias de semana, ele aguardava ansiosamente o final do dia para tê-la em seus braços. Sentia sua falta. Precisava da presença dela. Dos seus beijos, do seu carinho, da sua boca, do sexo tresloucado que praticavam.
Certo dia, Roberto recebeu a Luger de número 343 e iniciou a limpeza da arma. Como já era hora da chegada de Taninha, fez uma pausa na limpeza, já que a entrega seria feita no dia seguinte. Passados quinze minutos das 18 horas, ligou para o ramal da moça.
- Hoje não vou passar ai, Beto. Tô menstruada e com cólica, Vou embora. Roberto desligou o telefone, chateado e resolveu terminar o serviço que havia iniciado. Perdeu mais quarenta e cinco minutos nessa tarefa.
Qiuando estava saindo, viu a luz da sala de Percival acesa. Voltou ao almoxarifado e pegou arma para entregar a ele. Subiu dois lances de escada e cumprimentou Tião, ao passar por ele. O negro coçou a cabeça e acompanhou com o olhar enquanto Roberto galgava os degraus que o conduziriam ao saguão da diretoria.
Na ante-sala, a mesa de Taninha estava desarrumada e sua bolsa ainda permanecia ali. Com certeza – pensou Roberto – Percival a retivera ali para algum serviço extra. Coitada. Queria ir embora. Não estava bem. E o gordo crápula a detivera para um serão. Ouviu então a doce risada de Taninha dentro da sala. Bateu levemente na porta e abriu.
- Eu vim trazer sua Luger... - Calou-se imediatamente ao ver a cena que se apresentava aos seus olhos. Taninha, a sua Taninha, nua e suada cavalgava desavergonhadamente aquele pangaré gordo, sujo e mal-cheiroso.
Percival, sem se importar com a presença de Roberto, ordenou: - Deixe ai sobre a mesa e suma daqui. - Roberto não ouviu. Permaneceu ali parado, boquiaberto. Percival ergueu –se um pouco e gritou novamente:- Saia daqui, Roberto.
O rapaz, como que hipnoticamente, tal qual um zumbi, caminhou em direção dos dois. Lágrimas brotavam des seus olhos. Ele então sacou a arma do coldre e atirou duas vezes, atingindo mortalmente o peito de Percival. Taninha gritou e rapidamente pulou para o lado assustada. Percival permaneceu estático por um décimo de segundo, depois num último espasmo, ejaculou involuntariamente por 3 vezes. Taninha permaneceu sentada no chão ao seu lado, olhando aquele membro proporcionar-lhe um gozo macabro.
Roberto caminhou decidido em sua direção passando por cima do corpo de Percival.
- Eu te amo – disse a ela, chorando convulsivamente – Como você fez isso comigo?
Depois, enxugando as lágrimas, encostou a arma no peito alvo da moça, na altura onde deveria estar seu fiel, dedicado, eterno e tão somente seu coração. Ao sentir o aço frio da arma em seu corpo, Taninha tentou em desespero demovê-lo da idéia: - Quem ama não mata – disse, antes que ele disparasse a arma por mais três vezes.
Tião abriu a porta com a sua arma em punho, a tempo de ver os miolos e o sangue escuro de Roberto escorrerem na parede amarelada pela nicotina.

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Postado por Nelson Natalino em 06:21 PM

novembro 09, 2003

A FADA E O DENTE DE LEITE

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O menino crescera entre muitos brinquedos.
Na verdade, bonecos. Bonecos de toda a espécie, já que a mãe , a jovem Dulcinéia, desde o início da gravidez desejara que a criança fosse uma menina pois ela, em toda a sua infância, nunca tivera, porém sempre desejara uma boneca.
O pai, um agiota avarento, por toda a vida lhe negara esse presente.
Uma filha seria uma espécie de compensação.
A sórdida mesquinhez, Dulcinéia herdara do pai. Tinha apego ao dinheiro, mas não deixava de comprar bonecos, sempre que os visse nas lojas de brinquedos,

usando como subterfúgio inconsciente, presentear o filho. Eram super-heróis, jogadores de futebol, personagens de desenhos animados, de filmes, enfim, um sem números desses, digamos, souvenirs compensatórios, atulhavam o quarto do pequeno. Ele os detestava, tanto quanto aquela pinta do lado esquerdo da sua face, próxima ao nariz, que lhe rendera no Externato Villegaignon, o jocoso apelido de ponto final.

Já pedira à mãe para que apagasse do seu rosto aquela pinta.

- Um dia, meu filho, quem sabe um dia. Essa pinta é o seu charme.

Quando a mãe lhe disse isso, ele chegou a resmungar desgostoso, em tom baixo, entredentes: - se gosta tanto, pega pra você!

O menino ainda sofria outro descrédito por parte da mãe. Já contara a ela por diversas vezes, que durante a noite, todos aqueles bonecos ganhavam vida e ficavam em volta da sua cama, fazendo algazarra e perturbando o seu sono. Ele os mandava calarem-se e voltarem para os seus lugares mas eles não o obedeciam. Só paravam quando da chegada de um adulto ou ao apontar o primeiro raio de sol na janela do quarto. Esse argumento já usara diversas vezes para justificar porque dormia na sala de aulas e andava tirando notas tão abaixo da média. Ela não acreditara, e ainda o repreendera por utilizar uma impostura tão ingênua como desculpa. O menino, cônscio da veracidade da sua história, desde então ensimesmara e falava tão somente o necessário com as pessoas.com as quais convivia.

Num dia domingo, ao escovar os dentes, pela manhã, o menino notou um dente de leite frontal dançar sob a fricção da escova. Olhou-se no espelho e com a ponta da língua cutucou o dente, certificando-se do fato. O pequeno dentinho ia cair. Saiu correndo pela casa afora, para contar a novidade para a mãe.

- Oh! Que lindo, exclamou Dulcinéia. – Vamos arrancar ! A mamãe amarrra uma linha e puxa!

O menino negou-se terminantemente. Cutucou durante todo o dia o dente com a lingua, até que ele ficasse preso por apenas um apêndice de pele da gengiva. Correu novamente para a mãe, que lhe propôs amarrar uma ponta de linha no dente e outra ponta na maçaneta da porta do quarto. Desta forma, quando o menino quisesse, e tão somente quando decidisse, fecharia a porta e o dente seria arrancado. Assim foi feito. Dez minutos depois, a própria lingua, incomodada com a situação estranha na boca, fizera o serviço, retirando o dente da pele que o prendia. O menino voltou à mãe com o troféu nas mâos.
- Agora, vamos colocar seu dentinho sob o travesseiro. – disse ela - À noite, a sua fada madrinha virá, deixará uma moeda para você e ainda lhe atenderá um desejo. Porque você não pede à ela aquele bonequinho dos Super Rider Brothers que você tanto quer?
Assim foi feito. Dentinho sob o travesseiro, o menino, antes de dormir fizera sinceramente o seu desejo.

Na manhã seguinte logo cedo, Dulcinéia foi ao quarto do menino com uma moeda na mão para substituir o dentinho. Ao chegar ao quarto, curiosamente, deparou com a cama vazia. Onde teria se metido o pirralho àquela hora da manhã?

Rapidamente, antes que o menino voltasse,.ergueu o travesseiro procurando o dentinho, para trocá-lo

Em seu lugar, entrentanto, encontrou uma pequena bolsa de couro sovado. Dentro da bolsa, três reluzentes dobrões cunhados em puríssimo ouro bizantino.

Surpresa, Dulcinéia saiu à procura do menino por toda a casa. Estendeu a procura à rua. Depois às adjacências. Não o encontrando num raio de dois quilômetros e decorridas três horas, voltou ao quarto do menino antes de tomar outras medidas como ligar para a casa de todos os amiguinhos ou ir a uma delegacia.

Percebeu caida, ao lado direito da cama do menino, uma linda boneca de porcelana francesa, do tipo "Poupeés de Mode", com vestido de veludo vermelho, deixando transparecer uma saia de baixo em organdi suiço branco. Os olhos verdes da boneca pareciam fitá-la com ódio penetrante.

Dulcinéia assustada, apressou-se em limpar com o dedo polegar uma pequena pinta que a boneca trazia no lado esquerdo da face, próximo ao nariz.
A pinta saiu do rosto da boneca, transferindo-se para o dedo de Duclinéia. Ela esfregou o dedo indicador no polegar para retirar a tinta. Não conseguiu. Correu ao banheiro e lavou as mãos. A marca persistia, parecendo alojar-se sob a epiderme. Dulcinéia olhou-se lavou o rosto e voltou ao quarto, disposta a enfrentar novamente aquele olhar de ódio que ficara retido em sua mente, e que agora se configurava tão familiar. Olhou a boneca inerte sobre a cama.
Tomou–a novamente nas mãos.
A boneca agora trazia no rosto um leve sorriso de agradecimento.
Notava-se entre os seus lábios de porcelana, que era um sorriso banguela.





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Postado por Nelson Natalino em 06:14 PM

novembro 13, 2003

ESTAR DESEMPREGADO NÃO É NADA

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Agora, vamos prosear... pois a isso é que viemos. Falar das coisas desta cidade grande. Da grande cidade de São Paulo.
Me acode então à lembrança a figura de Zé. Desempregado.
Existe algum lugar no mundo onde haja mais Zés desempregados que São Paulo? Não existe.
Aposto meus parcos recursos e ganho. Não há.
Pois é, o Zé garimpava trabalho distribuindo curriculuns, que demonstravam suas aptidões de emérito ex-operador, ex-programador, ex-analista, ex-coordenador, ex-gerente de projeto e outros tantos "ex" que formavam seu passado profissional, que lhe outorgou finalmente o título de consultor em tecnologia.
E fazia isto via internet, jornais, amigos, inimigos, e tantos outros quantos lhe pudessem ajudar a encontrar um lugar que o remunerasse para sustentar as quatro boquinhas adolecentes, escancaradas e famintas, a espera de alimento, tal qual pardais no ninho, frutos de seu casamento com Beatriz.

Até que um belo dia recebeu em sua casa o telefonema esperado.
Uma entrevista. Foi marcada para o dia seguinte no horário de almoço, no restaurante Brahma, na esquina da São João com a Ipiranga.
Graxa no sapato, ferro na camisa, terno alinhado, gravata e pé na estrada.
De lotação é claro. Metrô República. Quando Zé chegou, havia uma mesa reservada em seu nome.
Na hora marcada chegou o homem num impecável terno de casimira inglesa, óculos redondo e um bigodinho chinfrim, trazendo em sua mão direita um garoto de uns 7 ou 8 anos, de cabelo vermelhos, cara sardenta e olhar de pestinha.

- Não me atrasei, não é ?- perguntou o homem olhando para o seu relógio de ouro no pulso esquerdo - Como vai, senhor José ? Eu sou o Haroldo, e este é o meu filho Nicolas. Desculpe, mas minha esposa foi às compras e me pediu para que o menino almoçasse comigo, não tem problema, não é?

O menino estendeu a mão direita e Zé, respondendo a pergunta de Haroldo, balbuciou um claro que não sorrindo.
Quando apertou a mão do menino, foi surpreendido por um choque e puxou a mão rapidamente, fazendo com que saltasse da mão do menino uma pequena engenhoca dessas compradas em casas de mágicas.
Haroldo repreendeu severamente o menino, até que Zé interferiu pedindo para que o pai relevasse a atitude - É apenas uma criança - disse ele, fazendo com que Haroldo interrompesse o sermão que aplicava.
Sentaram-se e foram abordados pelo garçon. Fizeram seus pedidos.
Haroldo sacou de sua pasta o curriculum e pôs-se a lê-lo.
O menino sentado ao lado do pai, e de frente para Zé, aproveitava que o pai não estava olhando, fazia vez em quando caretas, que Zé captava de canto de olho.

- Pois então senhor José, - disse Haroldo sem tirar os olhos do curriculum - somos uma empresa em franca expansão e precisamos de alguém com o seu perfil para gerenciar nossa área de informática. Não sou homem de rodeios. Quero sair deste almoço com esse problema resolvido...
- Passei minha vida inteira dentro de uma área de informática - respondeu prontamente Zé, sentindo quando em vez, o pequeno pé do menino, que balançava sob a mesa, esbarrar em sua calça. Olhou para o menino e este lhe sorriu com a boca banguela.
Zé sentiu-se aliviado e retribui-lhe o sorriso. O menino arregalou os olhos, enfiou os dois dedos indicadores na boca e estendeu a língua para fora, meneando a cabeça. Zé não queria acreditar no que via. Mas era verdade. Enfim, resolveu fazer vistas grossas.
Precisava do emprego.
Haroldo estava absorto, lendo atentamente o curriculum, o que era um bom sinal. Afinal, conforme Haroldo mesmo dissera, era grande a chance de sair dali empregado. Haroldo dobrou o curriculum perguntou o que o menino queira beber.
- Uma guaraná -respondeu com sua voz aguda.

- Fale sobre você - disse Haroldo para Zé, pegando um pãozinho de queijo - Zé começou a falar de suas passagens profissionais e a sentir cada vez mais o pé do menino.
Desviava a perna, mas o pé pirralho ia atrás, até acertá-lo.
Enfim, serviram o almoço. Haroldo começou a falar da empresa, empolgado, entre uma garfada e outra.
O menino puxou a cadeira pra a frente, para se aproximar do prato e estendendo a perna, fez seu pé pousar sobre o joelho de Zé.
Respirando fundo, Zé colocou o joelho para o lado fazendo com que a perna do menino caísse.
Não tardava e ele fazia-o repousar no outro joelho.
Não havia como escapar do fedelho, que a cada vez mostrava o sorriso sarcático escondido do pai.
Zé pediu licença, saiu da mesa e foi rapidamente para o banheiro. Entrou e deu um chute na porta, como se fosse própria bunda do moleque.
Depois se dirigiu até a torneira, encheu as mãos de água e lavou o seu rosto vermelho de raiva.
Pretendia ainda dar um soco no batente, mas ouviu alguem entrando enquanto enxugava o rosto, e desistiu da idéia. Olhou para trás e viu o pirralho fazendo xixi.
Resolveu então falar com o menino. Aproximou-se.
- Olhe aqui, menino... por favor - disse educadamente - o menino virou bruscamente. Zé sentiu um líquido quente correndo entre o sapato e a meia.
Fechou os olhos, respirou fundo e quando ia falar alguma coisa, e ouviu a porta do banheiro se fechando.
Abriu os olhos para certificar-se do que já tinha certeza. O pirralho escapulira. Tomado pela ira, voltou para a mesa disposto a dizer a esse tal de Haroldo que educasse seu filho.
Mas assim que chegou, Haroldo com um sorriso disse:- Espero você amanhã às oito. Ei o meu cartão. Seja bem vindo!
Zé não acreditou. Sentou-se aliviado. O pestinha de sorriso banguela, enquanto o pai fazia o cheque para pagar o almoço, aproveitando o momento de distração de Zé, enfiou o pé entre as pernas acertando suas parte baixas.
A reação foi incontinenti. Zé desferiu-lhe um pontapé na canela.
O menino arregalou os olhos e ficou sem congelado, com a boca aberta.
Haroldo estendeu a mão para Zé cumprimentou-o e saiu levando o menino pela mão.
Zé olhou. O menino mancava. Viu quando ele puxou o paletó do pai e apontou para a canela marcada.
O homem voltou, com um brilho fustigante no olhar. - O senhor chutou o meu filho?
- Não, veja bem, - disse Zé gaguejando - eu , eu não...
- Como não? Está vermelha! O menino não mente ! Vingar-se de uma criança, por uma brincadeirinha inocente, por um choquezinho! - dizendo isso picou o Curriculum em pedacinhos. O fedelho riu, olhando asssintosamente nos olhos de Zé
- Um choquezinho? - disse Zé enfurecido - Eu não conheço sua mulher, mas esse peste, é um grandessíssimo filho da. Puta!
E assim foi. Conta-se que chegaram às vias de fato.
Mas o real é que o Zé continuou engrossando a fileira dos Zés desempregados da São Paulo desvairada e o pestinha foi -se embora, milionário de berço, rindo à toa.



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Postado por Nelson Natalino em 01:12 AM

O GÊNIO DA INTERNET

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Numa noite qualquer de verão paulista, sem praia, sem programa algum que não seja ir até um Shopping, pegar trânsito, encarar filas para entrar no estacionamento, para comer, para ir ao cinema, para pagar o estacionamento, para sair do estacionamento, enfim, o melhor mesmo é ficar em casa, assim como fizeram Teodoro e Suelí. Ficar em casa, tomar uma cerveja, ligar a TV, abrir a janela do quarto e dormir. Dormir?
- Teodoro... Teodoro... dá pra tirar essa sua perna gorda e quente de cima da minha, por que eu quero dormir?
- RRRRRR....scoftrrrtttt....... RRRRRRR.rrrrrrrrrrRRR
- Teodoro... filho da puta... Pára de roncar... eu TAMBÉM quero dormir....
- RRRRstifst...... rrrrrrrr
- Ai, meu Deus!
Cutuca.
- Teodoro.... Teodoro....
- rrrrrrrrrrrr.rrrrrrrrrr.............rrrrrrrrrrrrrr
- Droga.

Pum.
- Pum? Pum, não. Tenha dó. Que cheiro desgraçado , Teodoro. Eu vou pra sala, ver se ainda passa o Comando da Madrugada! Dorme aí, com teu ronco e teu pum que que vou dormir no sofá!
- RRRRRRRRR.... rrrrrrrrrrr.... RRRRRRRRRR
- Cadê meu chinelo... Sai da frente, Totó... não tá na hora de passear ainda não. deita. Deita, cachorro, desgraçado.
- Dá pra calá a boca que eu quero dormí, Sueli?
- O que é Teodoro? VOCÊ quer dormir, seu.... seu... seu...
- RRRRRRRRRR....rrrrrrrrrrrrr.RRRRRRRR
- ..Teodoro! – chacoalha – Teodoro!
- RRRRRRRRR...........rrrrrrrrrrrrr
- Filho da Puta! Dá aqui, meu travesseiro. Podia pelo menos ser uma cópia do Gianechinni... aí sim, podia roncar a vontade.... depois de comparecer, é claro!
Sueli pára, dá mais uma olhada para Teodoro, tentando enxergar algo de Gianechinni nele. Uma coisinha qualquer... Não, Nada.

Então armada de seu travesseiro de penas de ganso, Sueli retira-se do quarto, alta madrugada.
Encontram-se três amigos inseparáveis em todos os lares: o sofá da sala , controle remoto e a TV. – CLIC!.
- Vá de Retro Satanás! Deixe esse corpo que não é seu!!! (clic)
- Com Perfect Body você vai emagrecer 3 kilos por semana, sem levantar da sua cadei...(clic)
- Aderbal está descendo pela lateral ... é só tocar para Fifo ao seu lado (clic)
- Hoje estamos visitando o hospital do (clic)
- O dolar sobe, empurrando o preço da gasolina e fazendo com que a inflação ...(clic)... Boa noite.... um beijo do gordo. (clic)
... o jumento e o cavalinho, eles nunca andam só, quando sai pra passeá levam a égua pocotó, pocotó, po (clic)Sai! Sai, Satanás!(clic)
- Puta que pariu! Sai Satanás, mesmo! Éguinha pocotó! Tenha dó! Vô é receber e-mail. Sai, Totó! Que droga! Cê parece meu rabo! ô cachorro chato!
Tróóóín in in in in inhóin xptrrrxxxxptrrr – Senha.
-ô droga de linha discada... - grita - Já te falei pra assinar banda larga, né Teodoro? Imcompetente... Enquanto o Outlook recebe os imeios eu vou fazer um chá de Camomila. Nossa! Que sujeira está esse micro! Cadê a flanela? Ah! tá aqui. – esfrega que esfrega – Nossa, não sai essa sujeira?
Bum!
- Arre! Que fumaceira! O que foi que fiz?
De repente, no meio da fumaça, surge um enorme ser, uma mistura de gênio das mil e uma noites e o ET de Varginha...
- Boa Noite!
- Bo. bo... bo... bo..a noi..te. Que quem é você?
- Eu genio.
- Eugênio?
- Non! Eu ser um gênio. O Gênio do Internet.... Você me libertal... libertaun liberr... bem eu estar preso nessas linhas há... há... zziz anos
- Quantos?
- Ten... diés... - disse o gênio espalmando as duas mãos.
- Só? O gênio da lâmpada do Aladim tava preso há milhares de anos...
- Pois é... Eu ter até vergonho de falar. But...... You, quer dizer, você ter direito a tree desejos...
- Puxa... Quem diria... eu que só queria dormir... não queria que o Teodoro não roncasse e que fosse uma cópia do Gianecchiini, levantei e olha só ! Tenho direito a três desejos.
- Pois non! – disse o Gênio e erguendo a mão estalou os dedos e sumiu numa nuvem de fumaça, assim como havia chegado.
- Não! – gritou Sueli – não são esses dese...
Não chegou a completar a frase. Desmaiou no sofá e só acordou no dia seguinte.
A casa vazia. Passaram-se os dias. Um, dois, três...
Depois de uma semana, Sueli recebeu a visita de um homem, dizendo-se advogado de uma tal de Rosa Solano Albuquerque Lins e Lins, trazendo-lhe um pedido de divórcio do seu marido, que seria resolvida por ele, o advogado, por procuração, que já o seu marido, futuro ex, ( aquele bonitão, com cara de Gianecchini) e Dona Rosa já haviam viajado para as Bahamas em pré-nupcias, aguardando apenas o divórcio.


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Postado por Nelson Natalino em 02:09 AM

novembro 14, 2003

PALAVRAS AO VENTO

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A palavra soa frágil na ponta rollerball da minha Bic cristal. Talvez, para que ganhasse credibilidade, fosse necessária a intervenção de uma pena adornada pela pluma de um pavão, um tinteiro com tinta azul lavável, onde cuidadosamente a pena fosse mergulhada para transformar o azul royal líquido em palavra concreta, sob a tênue luz das velas espetadas em família de quatro no castiçal de prata escurecida.
Houvesse ainda o complemento de uma túnica em tons de cinza jogada sobre o meu corpo magro, uma toalha de organdí puída pelo tempo jogada sobre a mesa, livros com seus títulos escondidos sob uma camada de poeira, chinelos com solado de couro e um globo com o velho Mediterrâneo voltado para a face norte, talvez se concedesse mais propriedade às palavras, antes que elas adentrassem no túnel infinito dos meios magnéticos.

Nós, os deuses mortais de carne, reinventamos a comunicação, o tempo e o meio.
Revisitamos a vida.
Reinventamos o jeito, onde sussuramos palavras digitais que se espalham em tempo real através de um megafone universal do tamanho do mundo.
Hoje, as palavras jogadas ao vento, desabam nas mesas de presidentes e sheiks, monarcas e putas, padres e donzelas e loucos, vagabundos e burocratas, enfim... se espalham como fogo na pólvora, sem bater na porta, sem pedir licença, sem aquele velho bornal encardido do mensageiro.

Nós reinventamos o papel do papel.

Mero figurante, se rende, humilde, sujeitando-se a ser tão somente eventual e reles portador das palavras.
Saudosista e melancólico estende seus olhos para trás e relembra o romantismo das cartas perfumadas entregues sorrateiramente.

Não é dado o direito, nem a mim nem a ninguém, a nenhum dos deuses mortais, do atrevimento de soprar e apagar as velas dos velhos castiçais. Não.
O tempo consome a vela.
Entre seitas, dógmas e parábolas, algum dia, um ancião, venerado entre os deuses, arrastará sua cadeira , riscando o assoalho com um rangido estridente, para sentar-se, escrever suas últimas palavras num velho e tosco caderno amarelado, fechará os olhos e aguardará que suas palavras ganhem a eternidade e a posteridade.
Quando o vento bater entre os espaços da veneziana, se dará ao trabalho que não nos é permitido.
E das trevas sempre se fará luz.


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Postado por Nelson Natalino em 12:19 AM