Tímido. É assim que poderia se definir Roberto. Tanto que chegava aos 22, virgem. Sem nunca ter tocado num peitinho, numa coxa, nada.
Quando garoto, fugiu do troca-troca, assim como o diabo foge da cruz.
Aos domingos, quando ia confessar seus pecados ao padre, era uma tortura para ambos:
- Perdão, pois eu pequei padre.
- Quais pecados cometeste, filho?
- Desobedeci minha mãe.
- Sim...
- Xinguei o Bentinho e discuti com o Tatá no futebol.
- Sim...
Silêncio.
- O que mais, filho?
- Só, padre.
- Nenhum pensamento mau?
- Não.
- Roubou?
- Não.
- Molestou alguma moça?
- Moça?
- Sim, moça, mulher....
- Não, não.
- Pensamentos obscenos?
- Não.
- Masturbação?
- O quê?
- Nada mais que se lembre?
- Não, padre.
O padre coçava a cabeça, pois nem achava que pudessem ser considerados pecado as coisas que o menino Roberto lhe confessava. Dava-lhe como penitência uma Ave Maria e um Pai Nosso, mais para fazer constar.. Era uma forma de fazer com que o menino orasse. Que tivesse um momento de reflexão.
Crescera assim. Atravessara assim a puberdade e chegara à maturidade assim. Imaculado.
Nenhum desdouro, penhor da sua timidez.
Era bonito, sim, uma beleza formal, quase comum. Mas detinha o que se pode chamar de um leve charme. Talvez até motivado pelo seu próprio acanhamento. Ruborizava sempre, mesmo ao receber o mais leve e discreto olhar feminino. Ao descobrir isso, até as meninas mais recatadas atreviam-se a lançar sobre o pobre infeliz, os encantos fêmeos que dispusesse, somente para provocá-lo.
Diz-se que mulher é um bicho pertinaz e sabe muito bem supliciar homens retraídos, com as mais sórdidas tentações, de um olhar lascivo à uma provocante abertura de pernas que permita entrever a calcinha marcada por pêlos pubianos.
E Roberto era vítima constante dessas e de outras cruéis armadilhas femininas.
Porém essa sua debilidade vencia qualquer tentativa de aventurar-se sequer a arriscar um olhar mais prolongado que pudesse chegar a excitá-lo, ou mesmo empolgá-lo a ponto de atirar-se a um desses convites que veladamente as mulheres viviam a fazer-lhe.
Roberto acaba de bacharelar-se em Administração de Empresas e nem mesmo a vida acadêmica conseguira extirpar o mal que o afastava do convívio social comum a todos os mortais.
Sua família, embora não fosse de posses, conseguira sustentar-lhe os estudos até a sua formatura, para que a partir de então Roberto procurasse um emprego e iniciasse sua vida profissional.
Assim se fez. Tão
logo se formou, Roberto consultou os classificados em busca de uma colocação. Enviou seu currículo magro à todas as empresas que julgou, pudessem contratá-lo.
Depois de 15 dias recebeu o chamado de uma delas. Era uma empresa de segurança. Sua entrevista fora marcada com o Sr. Percival, presidente e proprietário da empresa.
No dia e hora marcados, Roberto estava presente, barba escanhoada, sapatos cuidadosamente engraxados, terno em alinho, camisa engomada e gravata nova.
Ao chegar na empresa notou a informalidade e modéstia no trajar das pessoas. Disfarçadamente, tirou a gravata e guardou no bolso do paletó. Sentiu-se melhor, mas não ao ponto de afastar a maldita timidez que persistentemente resfolegava no seu ego, baixando a sua auto-estima e reduzindo-o a um reles candidato ao cargo de estafeta.
Foi encaminhado à ante-sala da Diretoria e atendido por uma simpática, sorridente e atenciosa secretária – Taninha.
Quando por fim a porta da sala do Sr. Percival se abriu, parecia que abria-se à sua frente a porta do inferno. Belzebu estava ali em pessoa aguardando que Roberto se dirigisse a ele.
A secretária notou o momento de indecisão: - Pode entrar Roberto.
O rapaz levantou, sentiu as pernas bambearem e a vista escurecer. Queria sair dali. Não queria falar com ninguém. Não queria aquele emprego. Não queria aquele patrão. Queria estar no aconchego do lar, tomando chá com torradas e recebendo cafunés de sua mãe.
A secretária sorriu-lhe. Ele retribuiu rapidamente o sorriso e baixou os olhos. Percival adiantou-se e estendeu-lhe a mão: - Vamos entrar, Roberto.
Roberto sentiu a mão gorda, quente, suada e pesada de Percival. Notou-lhe os cabelos pretos tingidos com tinta da Barbearia Paratodos do Brás. A gordura do corpanzil do homem excedia o tamanho da camisa, escapando pelos vãos entre os botões. Entraram na sala. O odor de cigarros que exalava de sua boca enquanto falava, estava impregnado em cada centímetro da sala decorada por armas antigas. Sentiu nojo da mão, do cheiro, dos dentes amarelados que se apresentavam num sorriso tosco e em desalinho. As paredes recebiam também a nuança amarelada artificial da nicotina curtida.
Um grande cinzeiro redondo de vidro, sobre a mesa, repleto de pontas de cigarros, completava o quadro bizarro.
Na entrevista, Roberto saiu-se mal. Com o estômago revolto pela ânsia constante, chegara quase a perder a voz.
- Hoje, Roberto, - disse Percival calmamente, após acender o terceiro cigarro durante os 15 minutos da entrevista – o que eu posso lhe oferecer é uma vaga de almoxarife.
Tenho lá no almoxarifado além de todos os materiais de escritório, de limpeza e de manutenção, o fardamento e as armas utilizadas pelos seguranças. É necessário que haja controle de tudo, entrada e baixa de estoque, análise de consumo, limpeza das armas, enfim, muito trabalho, como é o seu primeiro emprego, é uma excelente experiência. Depois disso, se você se sair bem, veremos outras oportunidades melhores, é claro, com promoção e aumento de salário. Temos assistência média, vale-refeição, cesta básica...
Acertaram-se e combinaram um salário satisfatório.
Percival chamou a secretária e comunicou a contratação, recomendando que ela o encaminhasse ao RH. Apertou novamente a mão de Roberto.
-Ah! Roberto, - completou – Uma coisa importante. A limpeza e manutençâo das armas são as maiores responsabilidades do almoxarifado.
- Mas eu...
- Não se preocupe. Você será orientado. O Custódio foi sub-tenente do exército. Sabe tudo. Ele será o seu instrutor.
A moça conduziu-o então pelo corredor
- Então você começa hoje mesmo – disse com voz melosa – Ah! Desculpe. Nem me apresentei, - disse parando no meio do corredor - Sou Tânia, secretária do Sr. Percival - dizendo isso, apertou levemente a mão direita de Roberto, olhando-o fixamente nos olhos.
Taninha sofria de um distúrbio chamado exacerbação de libido, mais conhecido como compulsão sexual. Em função disso, dos cento e trinta e sete seguranças da empresa cento e trinta e cinco já haviam provado seu apetite sexual. Os outros dois eram homossexuais e viviam em regime de concubinato, amando-se loucamente. Não deram a mínima chance para que Taninha se aproximasse deles. Ela tinha por tudo isso, um apelido sui generis – Putaninha -. A secretária de todos.
Aquele olhar para Roberto dissimulava suas segundas intenções. Disso, só ela sabia por enquanto.
Pela primeira vez em toda a sua vida, Roberto conseguira não dessviar o seu olhar. Os olhos de Taninha invadiram a virgindade do olhar dele e atingiram em cheio seu coração. Um gostoso frio repentino percorreu toda a espinha do moço, indo alojar-se em movimentos circulares na altura do estômago. Sentiu ainda seu órgão sexual enrijecer rapidamente.
Tudo durou um breve instante. A suavidade da mão dela ainda acariciava a mão dele, quando ele fechou os olhos e balançou a cabeça para espantar essa coisa desconhecida. Taninha, experiente, percebeu a conquista.
Quando voltava de sua tarefa, Taninha encontrou Madalena de passagem:- Aê, Taninha, carne nova e fresca, hein? – Taninha sorriu, deu com os ombros, ergueu as sobrancelhas e seguiu.
No dia seguinte,
logo que chegou, Roberto foi conduzido ao seu local de trabalho. A empresa estava instalada em um prédio de três andares. O almoxarifado entretanto, ficava no porão. Uma ala escura das intalações.
Caos. Assim poderia se definir a situação que Roberto encontrara o departamento pelo qual iria responder a partir daquele dia. Uma completa bagunça. Todos os materiais e suprimentos espalhados, amontoados, perdidos.
O rapaz do RH ao deixá-lo lá, disse apenas duas palavras: -Boa sorte.
Roberto sentou-se em sua mesa pela primeira vez. Pó.
A porta se entreabriu e alguém colocou o rosto no vão. Era Custódio, que conforme fora combinado, viera lhe dar instruções sobre a limpeza e manutenção das armas. Roberto iria aprender tudo tão rápido que surpreenderia a todos com a qualidade da manutenção que dispensaria as armas. Todos que as utilizavam iriam dizer que nunca fora assim. Nem mesmo quando o próprio Custódio cuidara desse afazer. Com Roberto, todas as armas receberiam cuidados quase maternais, inclusive e principalmente a arma 343 uma pistola Luger 7.65, que pertencia a Percival.
Durante as semanas que se seguiram, Roberto encarou a tarefa de colocar em ordem tudo, como o desafio da sua vida. Arregaçou as mangas e pôs mãos à obra. Separou o misturado, ergueu o caído, limpou o sujo. Etiquetou, organizou, inventariou, registrou, relacionou e passou a controlar. Todos os funcionários da empresa vez por outra, passavam por lá para ver o que estava acontecendo. Nunca, ninguém trabalhara tanto e com tamanho afinco como Roberto.
Taninha, invariavelmente no final da tarde, passava por lá para se despedir. O coração de Roberto esperava ansiosamente esse momento e disparava, em alegria ao vê-la. Depois da segunda semana, quando um dia Roberto foi procurá-la para pedir que a mulher da limpeza fosse ajudá-lo a manter asseado o ambiente, Taninha passou a visitá-lo duas vezes ao dia. No final da tarde, antes de ir embora, sentava-se sobre o balcão e cruzava as pernas roliças oferecendo-se a ele. Roberto descobrira enfim o tesão, mas nunca ousara masturbar-se. Vez por outra acordava pela manhã banhado em seu próprio sêmen e jogava os lençóis sujos no tanque para que a mãe não lhe notasse os deslizes.
As visitas de Taninha eram sempre repletas de conversas prazerosas, por vezes contidas pela persistente timidez de Roberto.
A moça, entretanto, já esgotara todas as possibilidades para reprimir sua impetuosa compulsão. Decidira que naquele dia iria assediá-lo.
No final da tarde, quando todos foram embora, Roberto e Taninha permaneceram conversando no almoxarifado. Em dado momento Taninha trancou a porta.
Quando Tião, o vigia noturno passou por lá e girou a maçaneta percebendo a porta trancada, imediatamente deduziu o lógico.
- Inté que demorô. – pensou retirando-se para o andar térreo onde era o seu posto Deveria passar de duas em duas horas marcado seu relógio com chaves especiais em cada departamento.
Nas duas primeiras rondas, não chaveou o almoxarifado. Lá dentro, Taninha usara toda a sua experiência para reduzir Roberto a um trapo. Fizera com ele coisas que por vezes a mais reles prostituta se recusaria fazer. Depois, o abandonou lá. Quase desacordado no chão. Nessa noite, já em sua casa, Roberto não conseguira pregar os olhos. Trazia tatuada em sua mente a imagem daquela mulher cavalgando nele e lhe dando prazer. Ela o fizera sentir-se um garanhão puro-sangue.
O relacionamento dos dois continuou assim, com encontros cada vez mais freqüentes, até tornarem-se diários. Inclusive aos finais de semana, agora se encontravam, como verdadeiros namorados, para passeios, sessões de cinema e bigmacs, com direito a esticadinhas para hoteis.
Nos dias de semana, ele aguardava ansiosamente o final do dia para tê-la em seus braços. Sentia sua falta. Precisava da presença dela. Dos seus beijos, do seu carinho, da sua boca, do sexo tresloucado que praticavam.
Certo dia, Roberto recebeu a Luger de número 343 e iniciou a limpeza da arma. Como já era hora da chegada de Taninha, fez uma pausa na limpeza, já que a entrega seria feita no dia seguinte. Passados quinze minutos das 18 horas, ligou para o ramal da moça.
- Hoje não vou passar ai, Beto. Tô menstruada e com cólica, Vou embora.
Roberto desligou o telefone, chateado e resolveu terminar o serviço que havia iniciado. Perdeu mais quarenta e cinco minutos nessa tarefa.
Qiuando estava saindo, viu a luz da sala de Percival acesa. Voltou ao almoxarifado e pegou arma para entregar a ele. Subiu dois lances de escada e cumprimentou Tião, ao passar por ele. O negro coçou a cabeça e acompanhou com o olhar enquanto Roberto galgava os degraus que o conduziriam ao saguão da diretoria.
Na ante-sala, a mesa de Taninha estava desarrumada e sua bolsa ainda permanecia ali. Com certeza – pensou Roberto – Percival a retivera ali para algum serviço extra. Coitada. Queria ir embora. Não estava bem. E o gordo crápula a detivera para um serão. Ouviu então a doce risada de Taninha dentro da sala. Bateu levemente na porta e abriu.
- Eu vim trazer sua Luger... - Calou-se imediatamente ao ver a cena que se apresentava aos seus olhos. Taninha, a sua Taninha, nua e suada cavalgava desavergonhadamente aquele pangaré gordo, sujo e mal-cheiroso.
Percival, sem se importar com a presença de Roberto, ordenou: - Deixe ai sobre a mesa e suma daqui. - Roberto não ouviu. Permaneceu ali parado, boquiaberto. Percival ergueu –se um pouco e gritou novamente:- Saia daqui, Roberto.
O rapaz, como que hipnoticamente, tal qual um zumbi, caminhou em direção dos dois. Lágrimas brotavam des seus olhos. Ele então sacou a arma do coldre e atirou duas vezes, atingindo mortalmente o peito de Percival. Taninha gritou e rapidamente pulou para o lado assustada. Percival permaneceu estático por um décimo de segundo, depois num último espasmo, ejaculou involuntariamente por 3 vezes. Taninha permaneceu sentada no chão ao seu lado, olhando aquele membro proporcionar-lhe um gozo macabro.
Roberto caminhou decidido em sua direção passando por cima do corpo de Percival.
- Eu te amo – disse a ela, chorando convulsivamente – Como você fez isso comigo?
Depois, enxugando as lágrimas, encostou a arma no peito alvo da moça, na altura onde deveria estar seu fiel, dedicado, eterno e tão somente seu coração.
Ao sentir o aço frio da arma em seu corpo, Taninha tentou em desespero demovê-lo da idéia: - Quem ama não mata – disse, antes que ele disparasse a arma por mais três vezes.
Tião abriu a porta com a sua arma em punho, a tempo de ver os miolos e o sangue escuro de Roberto escorrerem na parede amarelada pela nicotina.