dezembro 27, 2004

PEDRO E ANA ELISA

Um belo dia, após sete anos de casamento, Pedro entrou alvoroçado pela sala, tropeçando em móveis, olhos esbugalhados, boca espumando e respiração ofegante.
olhos ass.jpgAna Elisa interrompeu o ponto de crochê e olhou assustada, pois nunca durante todo esse período, o marido protagonizara cena similar àquela que ocorria naquele momento.
É certo que nos últimos dois anos, dera para sair com os amigos e beber um pouco além da conta, mas nada que fosse anormal. O horário também se alterara com o passar do tempo. Como naquela noite, nunca chegava cedo em casa. Passava das 10, já.
Pedro, gravata torta, cabelo desgrenhado, encostou-se na parede, fixou os olhos na porta e não mais desviou de lá o olhar.
Ana Elisa, ainda bastante assustada, levantou-se, caminhou lentamente até ele, olhando detalhada e cuidadosamente aquilo que parecia uma estátua grotesca do marido, sem que em momento algum, ele se desse conta da sua presença.
Ela tentou um primeiro contato – Pedro?
Os olhos arregalados dele ousaram desviar-se levemente da porta até encontrarem os de Ana Elisa.
Silêncio.
- Pedro? – insistiu ela, tocando suavemente as mãos trêmulas dele.
- E... ee... eu...te... amo, Aninha...
Eu te amo Aninha? Aninha? Ele não a chamava assim desde a festa de noivado, e já se iam aí mais de doze anos, já que noivaram cinco.
Pedro, então, voltou novamente os olhos para a porta, espalmou as mãos na parede e não proferiu mais palavra alguma apesar de toda insistência de Ana Elisa.
Depois de algum tempo, ela respirou fundo, sentou-se e ficou olhando para Pedro.
Preocupada, estava indecisa se ligava para o irmão de Pedro ou para um médico, quando foi surpreendida por um demorado toque na campainha. Nesse momento Pedro mostrou-se apavorado.
Ana levantou-se para abrir a porta, mas foi detida pelo grito desesperado dele. Suas unhas cravaram na parede arrancando o reboco.
- O que foi, Pedro?
Novamente soou a campainha. Pedro ficou calado, com o olhar perdido na direção da porta. Ana caminhou até lá, esperando alguma reação do marido.
Nada.
Receosa, Ana abriu uma pequena fresta na porta.
- Dona Anelisa? – perguntou docemnte uma voz feminina.
Pedro tremeu sem que Ana notasse e suas unhas novamente cravaram fundo na parede no exato momento em que ela escancarou a porta.
A mulher, morena alta, pernas grossas de saia e cabelos curtos, irrompeu sala adentro, barriga inchada ainda pelos tratos do parto, e ao passar depositou nos braços de Ana uma criança envolta em um chale. Com o olhar fixo e demoníaco, caminhou decididamente em direção à Pedro.
- Fala pr’ela – desafiou , apontando para Ana, sem tirar os olhos dele.
Pedro engoliu seco.
- Fala pr’ela, seu rato de esgoto.
Pedro olhou para a mulher com ódio e medo.
- Vô te dá uma última chanche. Fala pr’ela.
Pedro desandou a chorar.
A mulher abriu a bolsa e tirou um revolver. Antes mesmo que Ana pudesse esboçar qualquer reação, a mulher puxou o gatilho por três vezes. Pedro tombou já inerte.
Ana sentiu as pernas bambearem e caiu sentada na poltrona com a criança chorando em seus braços.
A mulher largou o revolver junto ao corpo, pegou o telefone e discou.
- Alô? É da trigésima oitava? Ói aqui. Eu tô na rua 25 de janeiro número 336. Eu dei treis tiro num disgraçado aqui. Pode vim aqui co camburão do IML? Brigado.
Dito isso, a mulher desligou o telefone, pegou calmamente a bolsa do chão, dirigiu-se até a porta e antes de sair falou para Ana, que chorava copiosamente: - Ói Dona... eu te livrei de um filho da puta e ele deixô esse otro aí de presente procê, tá bão? Cuida bem da criança qui num pediu pra vim presse mundo, não. Té logo. – Depois de sair pela porta, a mulher deu dois passos e voltou - Ah! Ocê é nova e bunita. Chora não, que vai dá tudo certo, viu?
Postado por Nelson Natalino em dezembro 27, 2004 09:18 PM