O JUIZ
Tinhoso o homem, me fazia perguntas descabidas. Olhei nos seus olhos e talvez tenha sido esse o meu pecado.
O vigor dos seus braços transmitiu-me a ira que ele sentia, e que eu nem mesmo entendia o porquê.
Era sabido que eu não era pouco mais que um adolescente. Mal saíra dos campinhos de futebol do Tucuruvi par estudar Direito no Largo São Francisco quando eles nos pegaram. Eu não tinha idéia do que estava acontecendo. Ainda estava sob os efeitos da comemoração do início da minha vida acadêmica.
Eu sempre fôra apolítico, não dando grande importância a homens, nem a causas.
Lúcio, sim. Era militante de esquerda fervoroso.
Sentara-se ao meu lado desde o primeiro dia de aula e travamos a partir daí uma amizade sincera. Ou quase, pois sinceridade da amizade terminava onde começava a segunda personagem da vida dupla de Lúcio. Ele nunca confiara a mim esse segredo.
Morávamos perto um do outro. Bairros circunvizinhos. De modo que no final das aulas, Lúcio me dava carona, todos os dias, no seu fusca azul turquesa. Ìamos invariavelmente ao som de Beatles, que rolava, a cada duas músicas das paradas de sucesso de qualquer rádio que se sintonizasse no dial. Falávamos de tudo, mulher, futebol (ele era são paulino e eu santista), comentávamos as aulas do dia, principalmente as de Direito Civil , mas nunca, veja bem, nunca falamos, nem uma vez sequer, de política.
Aquele dia ríamos muito, pois o professor de penal havia tropeçado e caído de boca no chão. Idoso, com os reflexos comprometidos, estatelara-se sem apelação. Muito embora não tivesse se machucado, a cena rendera assunto para o dia todo. Voltávamos para casa conversando, quando Lúcio olhando pelo retrovisor viu alguma coisa que o incomodou.
Eu nunca o vira nervoso daquela forma. Acelerou o carro e por mais que eu perguntasse, não dizia nada. Acelerava furiosamente. Me segurei. Olhei para trás e vi duas peruas Veraneio com homens com os braços para fora da janela, empunhando armas. Por fim nos alcançaram. Fecharam o fusquinha freando bruscamente na nossa frente. Homens com metralhadoras desceram das viaturas, apontado-nos as armas e gritando para que descecemos e deitássemos no chão.
Eu tentava explicar que tudo era um imenso engano, mas os homens me mandavam calar a boca. Como eu não obedecia, recebi um chute no estômago. Perdi o fôlego e calei. Algemaram-nos.
Quando nos levantaram do chão, meus olhos cruzaram com os olhos de Lúcio.
Empurraram-nos cada um para uma viatura. Lúcio continuou olhando para trás e gritando para que eu o desculpasse. Essa foi a última vez que o ví.
Os carros vararam a avenida Paulista até o bairro do Paraiso. Desceram uma rua à direita até chegar na Tutóia. Entraram num quartel onde poucas pessoas circulavam. Olhei em volta. Notei que a guarda era mista. Soldados do Exército e da Polícia Militar. Só então me dei conta do que poderia estar acontecendo.
Colocaram-me rapidamente um capuz que parecia ser de couro. Escuro e forte. Depois, me conduziram, por certo andando a esmo, por mais de quinze minutos.
Vendado, não conseguia divisar escadas, nem buracos de forma que caí por diversas vezes, e apanhava até levantar cada vez que caía. Ouvi amiúde o barulho de portas de ferro se abrindo e se fechando. Por fim, me jogaram numa cela gelada, ainda algemado e encapuzado.
Tiraram-me a roupa e os sapatos, deixando-me só de cuecas. O chão gelou imediatamente a sola dos meus pés. Não me tiraram, nem algemas nem capuz.
Ouvi a porta da cela se fechar. Perguntei onde estava e o que estava acontecendo.
- Cala a boca comunista, desgraçado, filho de uma puta. – foi a única resposta que me deram.
Ouvi quando caminharam até a outra porta. Riram. De mim, talvez. Os ferros rangeram e eles sairam. As vozes foram sumindo aos poucos.
Depois, um longo silêncio. Um silêncio triste que gerou um turbilhão de pensamentos. Miha mãe, Meu pai. A faculdade. Aquela escuridão estonteante que me deixava cada vez mais ansioso.
Ao longe, quando em vez, ouvia sons. Passos. Gritos. Urros. Silêncio. As horas se arrastavam. Não sei quantas. Me abandonaram. Gritei, por fim, quando as necessidades fisiológicas começaram a me perturbar. Ninguém respondeu ao meu chamado. Nada. Só os sons ao longe, vez em quando. Poucos sons, muito longe.
Gritei muito, até que me atacasse uma rouquidão. As necessidades não pude segurar.
Eu continuava algemado e encapuzado.
Depois de muito tempo, voltei a ouvir o barulho de chaves no corredor. Passos vindo em minha direção. Barulho de chaves na minha cela.
-Puta, que pariu, comuna! Que porcaria... Vocês vermelhos, só fazem merda, mesmo!
- Quem é você? Onde estou? – Ousei perguntar novamente.
- Cala a boca! – foi a ordem que me o homem deu e depois completou – Vou tirar sua algema, mas o capuz, você só tira depois que fechar a porta do corredor, ouviu bem? Sevocê ver a cor do meu sapato, eu te mato, entendeu, comuna, desgraçado?
- Eu naõ sou comunista...
- Já mandei você calar a boca, veado, filho da puta! Não te perguntei nada...Você entendeu o que eu disse?
- Entendi...
Ele então libertou-me das algemas. Ouvi quando ele saiu. As portas se fecharam e então arranquei o maldito capuz. Não havia luz. Um corredor escuro à minha frente era precariamente iluminado por uma luz fraca e amarelada.
Na cela, uma cama de concreto um vaso sanitário, que eu tanto precisara e que não sabia estar tão perto.
Sobre a cama, um cobertor, uma calça de brim azul claro e um rolo de papel higiênico. Limpei-me da melhor forma possível e coloquei a roupa limpa.
Chorei. Num acesso repentino, chorei muito. Não sabia o que estava acontecendo comigo.
Imaginava que tudo era um grande pesadelo e que de repente eu acordaria e toparia com minha mãe e meus irmãos. Era uma doce ilusão.
Por fim, conheci meu algóz. Ele se aproximou da cela e me olhou do lado de fora, não se importando que eu visse quem era ele.
Tinha os cabelos de um tom loiro acastanhado, os olhos azuis, o tronco parrudo demonstrando seu cuidado com o físico. Usava camiseta justa, expondo o biceps avantajado. Estatura mediana. Tinha os músculos harmoniosamente distribuidos em um metro e setenta.
Ao lado dele dois soldados com unifromes do exército portavam fuzís que apontavam em posição de tiro, ostensivamente para a minha cabeça, como se eu representasse um perigo iminente.
O homem loiro, então, sorriu para mim. Eu baixei os olhos.
Seus companheiros o chamavam de capitão Marques. Era com certeza um codinome.
Esse homem me faria conhecer o horror. Durante doze dias, ele me submeteria às mais vís situações de dor e humilhação, para que eu confessase algo que não sabia sequer do que se tratava.
Queria o nome do meu comandante, queira saber onde ficava o nosso aparelho.
Queira nomes. Quem fazia parte da nossa organização. Quem havia me cooptado. Quem, quem quem...
E eu não sabia nada! Absolutamente nada. Sofri doze dias de torturas. O que passei, não desejo ao mais ignóbil dos mortais. É inadmissível, inimaginável, como pode um ser humano subjugar e submeter seu semelhante à tais suplícios.
Esse homem me faria conhecer a dor. Tinhoso esse homem, me faria as mais descabidas perguntas. Olhei nos seus olhos. Talvez esse tenha sido o meu erro.
O vigor dos seus braços e a perversidade de sua mente transmitiram-me a ira que ele sentia
Quando sua voz grave me pediu mais uma vez nomes, eu já me encontrava no extertor das minhas forças. Num último lampejo de lucidez, dei o endereço de Antonio Souto. Um irmão. Uma amigo de infância. Um daqueles amigos que se leva pela vida toda.
Dei um também apelido. Tininho. E o endereço correto de Antonio Souto.
Tininho era um apelido que Antonio Souto havia me dado para que fosse utilizado apenas em situações embaraçosas, quando não podíamos revelar nossos nomes. Utilizamos algumas vezes o apelido. Numa certa ocasião em que roubamos um cavalo para cavalgar a noite e fomos pegos pelo guarda-noturno. Outra vez na paquera de meninas num bailinho em casa de desconhecidos. Numa briga em que nos envolvemos... Enfim, meras aventuras infantís.
Os homens acreditaram no que eu disse. E foram atrás de Tininho. Antonio Souto, procurado, convenceu-os de que nada sabia sobre essa pessoa. Quando os homes saíram de sua casa, ele os seguiu. Sabendo que eu havia desaparecido há uma semana, entendeu meu recado. Não pestanejou em ir atrás daqueles homens quando ouviu meu apelido. Comunicou meus irmãos de onde eu estava.
Eles foram atrás de mim. Perguntaram por mim e receberam informação de que eu não me encontrava lá.
Por essa pista falsa, recebi uma surra memorável. Depois o pau de arara até desfalecer.
Doze dias eu soube depois. Lá dentro foram uma eternidade. Eu não tinha mais idéia do que era noite ou dia. Perdera rapidamente o referencial.
Por fim, a divulgação escandalosa da morte de um jornalista nas dependências daquele porão, aliadas à procura feita pelos meus familiares e a certeza de que realmente eu não estava envolvido com a esquerda, precipitaram minha libertação.
Antes, porém, me fizeram prometer, sob pena de morte, de que quando perguntado, eu dissesse que fora assaltado e aprisionado e que os policiais que me entregavam à minha família haviam me libertado dos meliantes. Concordei imediatamente. Fiquei internado por uma semana para cuidar da saúde debilitada, dos ferimentos e dos hematomas gerados pelas torturas pelas quais passei.
Voltei à faculdade. Lúcio não. Nunca mais se soube nada dele. Sumiu. Desapareceu sem deixar vestígio algum.
Durante algum tempo, percebi ainda homens que, sempre de longe, espreitavam meus passos. Até que foram se tornando espaçadas suas investigações a meu respeito e depois de dois anos, aparentemente me esqueceram.
Me formei. Me tornei juiz. Morei fora de São Paulo por oito anos, nomeado em diversas cidadezinhas dp interior paulista.
Quando voltei a capital, a ditadura militar estava finalizando sua era.
Aqueles anos de chumbo haviam ficado para trás. Tudo o que passei caíra temporiamente no esquecimento. Vez por outra me assaltava um pesadelo ou uma lembrança. Mas nada que não fosse psicologicamente administrável.
Depois, envolvido com tantos casos, lendo extensos processos, tudo foi realmente ficando para trás.
Até aquela tarde.
Recebi a incumbência de julgar um caso de homicídio de uma mulher, em que o principal suspeito era o marido. Lí o processo. E todas as evidências apreesentadas pela defesa, inocentavam o marido. A Promotoria se baseava em fatos insípidos. Para mim era muito clara a inocência do acusado.
No dia do julgamento, quando tomei o meu lugar, e olhei o réu, um frio me percorreu aespinha instantaneamente.
Aquele rosto. Aqueles olhos. Aquele olhar frio, era para mim a simbologia viva do receio, do pavor, da dor, do desespero, da angústia, do ódio contido.
Ele certamente, não lembraria do meu olhar.
Mas eu, não. Não poderia fitar aqueles olhos sem que fosse tomado de agonia, de aflição, não poderia.
Mas era outra a situação agora.
Aquele homem que me subjugara, que me reduzira moralmente ao zero absoluto, que me concedera as piores horas de minha vida, e que agora eu sabia tratar-se de Sebastião Ignácio da Silva, sargento do exécito aposentado, estava agora a mercê da minha decisão. A mim caberia absolvê-lo ou encarcerá-lo.
O julgamento transcorreu, sem que eu me desse conta do que falavam defesa ou acusação.
O homem quando inquirido, jurou amar a mulher. Chorou. Comoveu a todos.
Meus pensamentos revoltos, minhas lembranças não me permitiram isso. Eu sabia do que eram capazes aquelas mãos, aqueles pés e aquela mente doentia.
Por fim, após algumas horas eu tinha o veridicto. O júri, havia decidido, como eu, antes de saber quem era ele, que aquele homem não assassinara a mulher. Eu e somente eu poderia mudar essa decisão. Acatei o que fora decidido pelo juri. Absolvi-o . ele saiu daquela sala livre.
Eu sabia o sabor daquela liberdade. Mas sabia também que libertara um crápula. Sabia, que embora não houvesse assassinado a mulher, com certeza pesava sobre os seus ombros centenas de mortes. A mim coubera apenas julgar um crime que ele não cometera.
Depois de três meses soube que ele foi morto em um suposto assalto.
Dois anos depois, alguém confessou haver matado sua mulher. Fora um crime passional.
Se tivesse sido condenado, o homem hoje estaria em liberdade.
Sua absolvição foi sua sentença de morte.
E eu... fui o juiz.
volta
sinaleiro blogger
sinaleiro weblogger
www.natalino
Postado por Nelson Natalino em dezembro 28, 2003 04:28 PM