BANDIDOS
Eles dividiam aquele quarto fétido, ao lado do córrego que conduzia os dejetos daquela comunidade marginal que se estabelecera ao longo dos últimos dois anos, próxima à zona central da cidade.
Estrategicamente construída, permitia o acesso à duas largas avenidas, rotas de fuga.
As armas embaixo dos travesseiros encardidos, apontavam para o medo que sentiam de que fossem encurralados no barraco
pela polícia, para prendê-los, já que não pagavam propina a nenhum e, por princípio, à ninguém.
Fizeram um pacto, certo dia.
Resistiriam ali até a morte. Por isso, chamavam o dormitório de alçapão.
Talvez fosse ali o seu túmulo. O local onde a alma se lhes escaparia do corpo rumo à expiação.
Do crime, já haviam se arrependido.
Ambos haviam confidenciado em meio à uma das noites mal dormidas a sua compunção por terem entrado nesse caminho. Consideravam-no entretanto, de mão única.
Não guardavam mais dentro de si, sequer um átimo de piedade.
Matavam gente, assim, como nós matamos insetos. Apenas para livrarem-se delas, após despojá-las de seus pertences mais valiosos, por vezes relógios baratos, ou dinheiro miúdo destinado ao pagamento da condução para o trabalho ou para casa.
Vez por outra, antes de matá-las, abusavam sexualmente das suas vítimas, fossem estas mulheres ou homens, posto que a cadeia se incumbira de homossexualizá-los.
O dinheiro lhes abastecia o vício do cheiro.
Pó. O maldito.
Naquela noite de garoa intermintente, antes de dormir, ambos estavam inquietos, pois haviam planejado um assalto a um dos supermercados de uma grande rede, cujo carro blindado recolhia a féria da noite anterior à 7 da manhã.
Deveriam entrar e render os funcionários às seis, enquanto terminavam de contar o dinheiro para acomodá-lo no malote. Seria a primeira vez que fariam algo desse porte.
Mas tudo havia sido bem planejado. Até mesmo o funcionário que lhes passara todas as informações concordara em ser baleado na perna, para não suscitar suspeitas.
Tucano, que assim era chamado pela anomalia de sua nariganga, levantara-se diversas vezes durante a madrugada, perturbado por estranhos ruídos do lado de fora do barraco.
Nicola, o comparsa, sono pesado, ressonava. Mas bastou que o primeiro tiro varasse as duas paredes do barracão para que ele saltasse, arma em punho e atirasse a esmo devolvendo balas para o lado de fora do barracão. Gritou para que Tucano se deitasse, quando a saraivada de balas batucou no zinco do barracão, mas não obteve resposta do companheiro. Num breve momento em que um raio entrecortou o céu, ele viu de relance o sangue correndo pela testa do amigo caído no chão.
Incontinenti, sentiu o chumbo quente penetrando em diversas partes do corpo, ardendo na carne, por instantes.
Quando tombou, já sem vida, os olhos arregalados recebiam a água da chuva que penetrava pelos vãos do telhado mal assentado.
No momento em que as almas pactuadas pularam do corpo e se olharam, e olharam em torno de si, puderam constatar que anjos caídos, gênios maléficos, membros do exército de Lúcifer, já se encontravam alí para recepcioná-los em júbilo.
Abraçaram-se.
O Mestre os receberia pessoalmente, ainda aquela noite.
© by Nelson Natalino - Dezembro 2003
Todos os direitos reservados.
Proibida a publicação sem autorização expressa do autor
volta
sinaleiro blogger
sinaleiro weblogger
www.natalino
Postado por Nelson Natalino em dezembro 5, 2003 01:02 PM