dezembro 05, 2003

BANDIDOS


barraco.JPG

Eles dividiam aquele quarto fétido, ao lado do córrego que conduzia os dejetos daquela comunidade marginal que se estabelecera ao longo dos últimos dois anos, próxima à zona central da cidade.
Estrategicamente construída, permitia o acesso à duas largas avenidas, rotas de fuga.

As armas embaixo dos travesseiros encardidos, apontavam para o medo que sentiam de que fossem encurralados no barraco
pela polícia, para prendê-los, já que não pagavam propina a nenhum e, por princípio, à ninguém.

Fizeram um pacto, certo dia.
Resistiriam ali até a morte. Por isso, chamavam o dormitório de alçapão.
Talvez fosse ali o seu túmulo. O local onde a alma se lhes escaparia do corpo rumo à expiação.

Do crime, já haviam se arrependido.
Ambos haviam confidenciado em meio à uma das noites mal dormidas a sua compunção por terem entrado nesse caminho. Consideravam-no entretanto, de mão única.

Não guardavam mais dentro de si, sequer um átimo de piedade.
Matavam gente, assim, como nós matamos insetos. Apenas para livrarem-se delas, após despojá-las de seus pertences mais valiosos, por vezes relógios baratos, ou dinheiro miúdo destinado ao pagamento da condução para o trabalho ou para casa.

Vez por outra, antes de matá-las, abusavam sexualmente das suas vítimas, fossem estas mulheres ou homens, posto que a cadeia se incumbira de homossexualizá-los.
O dinheiro lhes abastecia o vício do cheiro.
Pó. O maldito.

Naquela noite de garoa intermintente, antes de dormir, ambos estavam inquietos, pois haviam planejado um assalto a um dos supermercados de uma grande rede, cujo carro blindado recolhia a féria da noite anterior à 7 da manhã.
Deveriam entrar e render os funcionários às seis, enquanto terminavam de contar o dinheiro para acomodá-lo no malote. Seria a primeira vez que fariam algo desse porte.
Mas tudo havia sido bem planejado. Até mesmo o funcionário que lhes passara todas as informações concordara em ser baleado na perna, para não suscitar suspeitas.

Tucano, que assim era chamado pela anomalia de sua nariganga, levantara-se diversas vezes durante a madrugada, perturbado por estranhos ruídos do lado de fora do barraco.
Nicola, o comparsa, sono pesado, ressonava. Mas bastou que o primeiro tiro varasse as duas paredes do barracão para que ele saltasse, arma em punho e atirasse a esmo devolvendo balas para o lado de fora do barracão. Gritou para que Tucano se deitasse, quando a saraivada de balas batucou no zinco do barracão, mas não obteve resposta do companheiro. Num breve momento em que um raio entrecortou o céu, ele viu de relance o sangue correndo pela testa do amigo caído no chão.

Incontinenti, sentiu o chumbo quente penetrando em diversas partes do corpo, ardendo na carne, por instantes.
Quando tombou, já sem vida, os olhos arregalados recebiam a água da chuva que penetrava pelos vãos do telhado mal assentado.

No momento em que as almas pactuadas pularam do corpo e se olharam, e olharam em torno de si, puderam constatar que anjos caídos, gênios maléficos, membros do exército de Lúcifer, já se encontravam alí para recepcioná-los em júbilo.
Abraçaram-se.
O Mestre os receberia pessoalmente, ainda aquela noite.


© by Nelson Natalino - Dezembro 2003 Todos os direitos reservados. Proibida a publicação sem autorização expressa do autor volta
sinaleiro blogger
sinaleiro weblogger
www.natalino


Postado por Nelson Natalino em dezembro 5, 2003 01:02 PM