novembro 14, 2003

PALAVRAS AO VENTO

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A palavra soa frágil na ponta rollerball da minha Bic cristal. Talvez, para que ganhasse credibilidade, fosse necessária a intervenção de uma pena adornada pela pluma de um pavão, um tinteiro com tinta azul lavável, onde cuidadosamente a pena fosse mergulhada para transformar o azul royal líquido em palavra concreta, sob a tênue luz das velas espetadas em família de quatro no castiçal de prata escurecida.
Houvesse ainda o complemento de uma túnica em tons de cinza jogada sobre o meu corpo magro, uma toalha de organdí puída pelo tempo jogada sobre a mesa, livros com seus títulos escondidos sob uma camada de poeira, chinelos com solado de couro e um globo com o velho Mediterrâneo voltado para a face norte, talvez se concedesse mais propriedade às palavras, antes que elas adentrassem no túnel infinito dos meios magnéticos.

Nós, os deuses mortais de carne, reinventamos a comunicação, o tempo e o meio.
Revisitamos a vida.
Reinventamos o jeito, onde sussuramos palavras digitais que se espalham em tempo real através de um megafone universal do tamanho do mundo.
Hoje, as palavras jogadas ao vento, desabam nas mesas de presidentes e sheiks, monarcas e putas, padres e donzelas e loucos, vagabundos e burocratas, enfim... se espalham como fogo na pólvora, sem bater na porta, sem pedir licença, sem aquele velho bornal encardido do mensageiro.

Nós reinventamos o papel do papel.

Mero figurante, se rende, humilde, sujeitando-se a ser tão somente eventual e reles portador das palavras.
Saudosista e melancólico estende seus olhos para trás e relembra o romantismo das cartas perfumadas entregues sorrateiramente.

Não é dado o direito, nem a mim nem a ninguém, a nenhum dos deuses mortais, do atrevimento de soprar e apagar as velas dos velhos castiçais. Não.
O tempo consome a vela.
Entre seitas, dógmas e parábolas, algum dia, um ancião, venerado entre os deuses, arrastará sua cadeira , riscando o assoalho com um rangido estridente, para sentar-se, escrever suas últimas palavras num velho e tosco caderno amarelado, fechará os olhos e aguardará que suas palavras ganhem a eternidade e a posteridade.
Quando o vento bater entre os espaços da veneziana, se dará ao trabalho que não nos é permitido.
E das trevas sempre se fará luz.


© by Nelson Natalino - Junho 2003
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Postado por Nelson Natalino em novembro 14, 2003 12:19 AM