novembro 13, 2003

ESTAR DESEMPREGADO NÃO É NADA

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Agora, vamos prosear... pois a isso é que viemos. Falar das coisas desta cidade grande. Da grande cidade de São Paulo.
Me acode então à lembrança a figura de Zé. Desempregado.
Existe algum lugar no mundo onde haja mais Zés desempregados que São Paulo? Não existe.
Aposto meus parcos recursos e ganho. Não há.
Pois é, o Zé garimpava trabalho distribuindo curriculuns, que demonstravam suas aptidões de emérito ex-operador, ex-programador, ex-analista, ex-coordenador, ex-gerente de projeto e outros tantos "ex" que formavam seu passado profissional, que lhe outorgou finalmente o título de consultor em tecnologia.
E fazia isto via internet, jornais, amigos, inimigos, e tantos outros quantos lhe pudessem ajudar a encontrar um lugar que o remunerasse para sustentar as quatro boquinhas adolecentes, escancaradas e famintas, a espera de alimento, tal qual pardais no ninho, frutos de seu casamento com Beatriz.

Até que um belo dia recebeu em sua casa o telefonema esperado.
Uma entrevista. Foi marcada para o dia seguinte no horário de almoço, no restaurante Brahma, na esquina da São João com a Ipiranga.
Graxa no sapato, ferro na camisa, terno alinhado, gravata e pé na estrada.
De lotação é claro. Metrô República. Quando Zé chegou, havia uma mesa reservada em seu nome.
Na hora marcada chegou o homem num impecável terno de casimira inglesa, óculos redondo e um bigodinho chinfrim, trazendo em sua mão direita um garoto de uns 7 ou 8 anos, de cabelo vermelhos, cara sardenta e olhar de pestinha.

- Não me atrasei, não é ?- perguntou o homem olhando para o seu relógio de ouro no pulso esquerdo - Como vai, senhor José ? Eu sou o Haroldo, e este é o meu filho Nicolas. Desculpe, mas minha esposa foi às compras e me pediu para que o menino almoçasse comigo, não tem problema, não é?

O menino estendeu a mão direita e Zé, respondendo a pergunta de Haroldo, balbuciou um claro que não sorrindo.
Quando apertou a mão do menino, foi surpreendido por um choque e puxou a mão rapidamente, fazendo com que saltasse da mão do menino uma pequena engenhoca dessas compradas em casas de mágicas.
Haroldo repreendeu severamente o menino, até que Zé interferiu pedindo para que o pai relevasse a atitude - É apenas uma criança - disse ele, fazendo com que Haroldo interrompesse o sermão que aplicava.
Sentaram-se e foram abordados pelo garçon. Fizeram seus pedidos.
Haroldo sacou de sua pasta o curriculum e pôs-se a lê-lo.
O menino sentado ao lado do pai, e de frente para Zé, aproveitava que o pai não estava olhando, fazia vez em quando caretas, que Zé captava de canto de olho.

- Pois então senhor José, - disse Haroldo sem tirar os olhos do curriculum - somos uma empresa em franca expansão e precisamos de alguém com o seu perfil para gerenciar nossa área de informática. Não sou homem de rodeios. Quero sair deste almoço com esse problema resolvido...
- Passei minha vida inteira dentro de uma área de informática - respondeu prontamente Zé, sentindo quando em vez, o pequeno pé do menino, que balançava sob a mesa, esbarrar em sua calça. Olhou para o menino e este lhe sorriu com a boca banguela.
Zé sentiu-se aliviado e retribui-lhe o sorriso. O menino arregalou os olhos, enfiou os dois dedos indicadores na boca e estendeu a língua para fora, meneando a cabeça. Zé não queria acreditar no que via. Mas era verdade. Enfim, resolveu fazer vistas grossas.
Precisava do emprego.
Haroldo estava absorto, lendo atentamente o curriculum, o que era um bom sinal. Afinal, conforme Haroldo mesmo dissera, era grande a chance de sair dali empregado. Haroldo dobrou o curriculum perguntou o que o menino queira beber.
- Uma guaraná -respondeu com sua voz aguda.

- Fale sobre você - disse Haroldo para Zé, pegando um pãozinho de queijo - Zé começou a falar de suas passagens profissionais e a sentir cada vez mais o pé do menino.
Desviava a perna, mas o pé pirralho ia atrás, até acertá-lo.
Enfim, serviram o almoço. Haroldo começou a falar da empresa, empolgado, entre uma garfada e outra.
O menino puxou a cadeira pra a frente, para se aproximar do prato e estendendo a perna, fez seu pé pousar sobre o joelho de Zé.
Respirando fundo, Zé colocou o joelho para o lado fazendo com que a perna do menino caísse.
Não tardava e ele fazia-o repousar no outro joelho.
Não havia como escapar do fedelho, que a cada vez mostrava o sorriso sarcático escondido do pai.
Zé pediu licença, saiu da mesa e foi rapidamente para o banheiro. Entrou e deu um chute na porta, como se fosse própria bunda do moleque.
Depois se dirigiu até a torneira, encheu as mãos de água e lavou o seu rosto vermelho de raiva.
Pretendia ainda dar um soco no batente, mas ouviu alguem entrando enquanto enxugava o rosto, e desistiu da idéia. Olhou para trás e viu o pirralho fazendo xixi.
Resolveu então falar com o menino. Aproximou-se.
- Olhe aqui, menino... por favor - disse educadamente - o menino virou bruscamente. Zé sentiu um líquido quente correndo entre o sapato e a meia.
Fechou os olhos, respirou fundo e quando ia falar alguma coisa, e ouviu a porta do banheiro se fechando.
Abriu os olhos para certificar-se do que já tinha certeza. O pirralho escapulira. Tomado pela ira, voltou para a mesa disposto a dizer a esse tal de Haroldo que educasse seu filho.
Mas assim que chegou, Haroldo com um sorriso disse:- Espero você amanhã às oito. Ei o meu cartão. Seja bem vindo!
Zé não acreditou. Sentou-se aliviado. O pestinha de sorriso banguela, enquanto o pai fazia o cheque para pagar o almoço, aproveitando o momento de distração de Zé, enfiou o pé entre as pernas acertando suas parte baixas.
A reação foi incontinenti. Zé desferiu-lhe um pontapé na canela.
O menino arregalou os olhos e ficou sem congelado, com a boca aberta.
Haroldo estendeu a mão para Zé cumprimentou-o e saiu levando o menino pela mão.
Zé olhou. O menino mancava. Viu quando ele puxou o paletó do pai e apontou para a canela marcada.
O homem voltou, com um brilho fustigante no olhar. - O senhor chutou o meu filho?
- Não, veja bem, - disse Zé gaguejando - eu , eu não...
- Como não? Está vermelha! O menino não mente ! Vingar-se de uma criança, por uma brincadeirinha inocente, por um choquezinho! - dizendo isso picou o Curriculum em pedacinhos. O fedelho riu, olhando asssintosamente nos olhos de Zé
- Um choquezinho? - disse Zé enfurecido - Eu não conheço sua mulher, mas esse peste, é um grandessíssimo filho da. Puta!
E assim foi. Conta-se que chegaram às vias de fato.
Mas o real é que o Zé continuou engrossando a fileira dos Zés desempregados da São Paulo desvairada e o pestinha foi -se embora, milionário de berço, rindo à toa.



© by Nelson Natalino - Junho 2003
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Postado por Nelson Natalino em novembro 13, 2003 01:12 AM