Já pedira à mãe para que apagasse do seu rosto aquela pinta.
- Um dia, meu filho, quem sabe um dia. Essa pinta é o seu charme.
Quando a mãe lhe disse isso, ele chegou a resmungar desgostoso, em tom baixo, entredentes: - se gosta tanto, pega pra você!
O menino ainda sofria outro descrédito por parte da mãe. Já contara a ela por diversas vezes, que durante a noite, todos aqueles bonecos ganhavam vida e ficavam em volta da sua cama, fazendo algazarra e perturbando o seu sono. Ele os mandava calarem-se e voltarem para os seus lugares mas eles não o obedeciam. Só paravam quando da chegada de um adulto ou ao apontar o primeiro raio de sol na janela do quarto. Esse argumento já usara diversas vezes para justificar porque dormia na sala de aulas e andava tirando notas tão abaixo da média. Ela não acreditara, e ainda o repreendera por utilizar uma impostura tão ingênua como desculpa. O menino, cônscio da veracidade da sua história, desde então ensimesmara e falava tão somente o necessário com as pessoas.com as quais convivia.
Num dia domingo, ao escovar os dentes, pela manhã, o menino notou um dente de leite frontal dançar sob a fricção da escova. Olhou-se no espelho e com a ponta da língua cutucou o dente, certificando-se do fato. O pequeno dentinho ia cair. Saiu correndo pela casa afora, para contar a novidade para a mãe.
- Oh! Que lindo, exclamou Dulcinéia. – Vamos arrancar ! A mamãe amarrra uma linha e puxa!
O menino negou-se terminantemente. Cutucou durante todo o dia o dente com a lingua, até que ele ficasse preso por apenas um apêndice de pele da gengiva. Correu novamente para a mãe, que lhe propôs amarrar uma ponta de linha no dente e outra ponta na maçaneta da porta do quarto. Desta forma, quando o menino quisesse, e tão somente quando decidisse, fecharia a porta e o dente seria arrancado. Assim foi feito. Dez minutos depois, a própria lingua, incomodada com a situação estranha na boca, fizera o serviço, retirando o dente da pele que o prendia. O menino voltou à mãe com o troféu nas mâos.
- Agora, vamos colocar seu dentinho sob o travesseiro. – disse ela - À noite, a sua fada madrinha virá, deixará uma moeda para você e ainda lhe atenderá um desejo. Porque você não pede à ela aquele bonequinho dos Super Rider Brothers que você tanto quer?
Assim foi feito. Dentinho sob o travesseiro, o menino, antes de dormir fizera sinceramente o seu desejo.
Na manhã seguinte logo cedo, Dulcinéia foi ao quarto do menino com uma moeda na mão para substituir o dentinho. Ao chegar ao quarto, curiosamente, deparou com a cama vazia. Onde teria se metido o pirralho àquela hora da manhã?
Rapidamente, antes que o menino voltasse,.ergueu o travesseiro procurando o dentinho, para trocá-lo
Em seu lugar, entrentanto, encontrou uma pequena bolsa de couro sovado. Dentro da bolsa, três reluzentes dobrões cunhados em puríssimo ouro bizantino.
Surpresa, Dulcinéia saiu à procura do menino por toda a casa. Estendeu a procura à rua. Depois às adjacências. Não o encontrando num raio de dois quilômetros e decorridas três horas, voltou ao quarto do menino antes de tomar outras medidas como ligar para a casa de todos os amiguinhos ou ir a uma delegacia.
Percebeu caida, ao lado direito da cama do menino, uma linda boneca de porcelana francesa, do tipo "Poupeés de Mode", com vestido de veludo vermelho, deixando transparecer uma saia de baixo em organdi suiço branco. Os olhos verdes da boneca pareciam fitá-la com ódio penetrante.
Dulcinéia assustada, apressou-se em limpar com o dedo polegar uma pequena pinta que a boneca trazia no lado esquerdo da face, próximo ao nariz.
A pinta saiu do rosto da boneca, transferindo-se para o dedo de Duclinéia. Ela esfregou o dedo indicador no polegar para retirar a tinta. Não conseguiu. Correu ao banheiro e lavou as mãos. A marca persistia, parecendo alojar-se sob a epiderme. Dulcinéia olhou-se lavou o rosto e voltou ao quarto, disposta a enfrentar novamente aquele olhar de ódio que ficara retido em sua mente, e que agora se configurava tão familiar. Olhou a boneca inerte sobre a cama.
Tomou–a novamente nas mãos.
A boneca agora trazia no rosto um leve sorriso de agradecimento.
Notava-se entre os seus lábios de porcelana, que era um sorriso banguela.