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novembro 08, 2003

ROBERTO - O TÍMIDO

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Tímido. É assim que poderia se definir Roberto. Tanto que chegava aos 22, virgem. Sem nunca ter tocado num peitinho, numa coxa, nada.
Quando garoto, fugiu do troca-troca, assim como o diabo foge da cruz.
Aos domingos, quando ia confessar seus pecados ao padre, era uma tortura para ambos:
- Perdão, pois eu pequei padre.
- Quais pecados cometeste, filho?
- Desobedeci minha mãe.
- Sim...
- Xinguei o Bentinho e discuti com o Tatá no futebol.
- Sim...
Silêncio.
- O que mais, filho?

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Postado por Nelson Natalino em 06:21 PM

novembro 09, 2003

A FADA E O DENTE DE LEITE

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O menino crescera entre muitos brinquedos.
Na verdade, bonecos. Bonecos de toda a espécie, já que a mãe , a jovem Dulcinéia, desde o início da gravidez desejara que a criança fosse uma menina pois ela, em toda a sua infância, nunca tivera, porém sempre desejara uma boneca.
O pai, um agiota avarento, por toda a vida lhe negara esse presente.
Uma filha seria uma espécie de compensação.
A sórdida mesquinhez, Dulcinéia herdara do pai. Tinha apego ao dinheiro, mas não deixava de comprar bonecos, sempre que os visse nas lojas de brinquedos,

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Postado por Nelson Natalino em 06:14 PM

novembro 13, 2003

ESTAR DESEMPREGADO NÃO É NADA

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Agora, vamos prosear... pois a isso é que viemos. Falar das coisas desta cidade grande. Da grande cidade de São Paulo.
Me acode então à lembrança a figura de Zé. Desempregado.
Existe algum lugar no mundo onde haja mais Zés desempregados que São Paulo? Não existe.
Aposto meus parcos recursos e ganho. Não há.
Pois é, o Zé garimpava trabalho distribuindo curriculuns, que demonstravam suas aptidões de emérito ex-operador, ex-programador, ex-analista, ex-coordenador, ex-gerente de projeto e outros tantos "ex" que formavam seu passado profissional, que lhe outorgou finalmente o título de consultor em tecnologia.
E fazia isto via internet, jornais, amigos, inimigos, e tantos outros quantos lhe pudessem ajudar a encontrar um lugar que o remunerasse para sustentar as quatro boquinhas adolecentes, escancaradas e famintas, a espera de alimento, tal qual pardais no ninho, frutos de seu casamento com Beatriz.

Até que um belo dia recebeu em sua casa o telefonema esperado.
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Postado por Nelson Natalino em 01:12 AM

O GÊNIO DA INTERNET

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Numa noite qualquer de verão paulista, sem praia, sem programa algum que não seja ir até um Shopping, pegar trânsito, encarar filas para entrar no estacionamento, para comer, para ir ao cinema, para pagar o estacionamento, para sair do estacionamento, enfim, o melhor mesmo é ficar em casa, assim como fizeram Teodoro e Suelí. Ficar em casa, tomar uma cerveja, ligar a TV, abrir a janela do quarto e dormir. Dormir?
- Teodoro... Teodoro... dá pra tirar essa sua perna gorda e quente de cima da minha, por que eu quero dormir?
- RRRRRR....scoftrrrtttt....... RRRRRRR.rrrrrrrrrrRRR
- Teodoro... filho da puta... Pára de roncar... eu TAMBÉM quero dormir....
- RRRRstifst...... rrrrrrrr
- Ai, meu Deus!
Cutuca.
- Teodoro.... Teodoro....
- rrrrrrrrrrrr.rrrrrrrrrr.............rrrrrrrrrrrrrr
- Droga.
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Postado por Nelson Natalino em 02:09 AM

novembro 14, 2003

PALAVRAS AO VENTO

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A palavra soa frágil na ponta rollerball da minha Bic cristal. Talvez, para que ganhasse credibilidade, fosse necessária a intervenção de uma pena adornada pela pluma de um pavão, um tinteiro com tinta azul lavável, onde cuidadosamente a pena fosse mergulhada para transformar o azul royal líquido em palavra concreta, sob a tênue luz das velas espetadas em família de quatro no castiçal de prata escurecida.
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Postado por Nelson Natalino em 12:19 AM

dezembro 05, 2003

BANDIDOS


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Eles dividiam aquele quarto fétido, ao lado do córrego que conduzia os dejetos daquela comunidade marginal que se estabelecera ao longo dos últimos dois anos, próxima à zona central da cidade.
Estrategicamente construída, permitia o acesso à duas largas avenidas, rotas de fuga.

As armas embaixo dos travesseiros encardidos, apontavam para o medo que sentiam de que fossem encurralados no barraco
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Postado por Nelson Natalino em 01:02 PM

dezembro 11, 2003

PEQUENO LAPSO DE TEMPO QUE NOS FEZ IMPERFEITOS


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No princípio as trevas. A terra vazia, não tinha uma forma definida. O espírito do criador pairava sobra as águas que envolviam o mundo. E Ele disse: " Que haja luz". E a luz se fez magnífica. Criou o dia e a noite – e se fez o primeiro dia. Separou céu e terra. Águas de cima e de baixo.
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Postado por Nelson Natalino em 07:36 PM

dezembro 23, 2003

UM LIGEIRO ENGANO


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Noite. A rua era deserta. Pouco movimento, exceto das pessoas que moravam por ali. Mas àquela hora, já beirando a meia-noite, quase ninguém.

Protegidos pela treva noturnal e pelo mêdo da população, dois “carecas” surravam impiedosamente um rapaz muito bem vestido, cabelos aparados, olhos claros, aparentando 25 anos aproximadamente.

Espancavam-no quando chegou um terceiro “careca”. Enormes tatuagens de caveiras e suásticas adornavam os corpos sarados dos três.
Curiosamente com a chegada do terceiro os outros largaram o rapaz já quase inerte caido no chão e se dirigiram para o amigo, como se nada estivessse acontecendo.

Cumprimentaram-se de forma estranha estalando as palmas das mãos depois tocando ombro a ombro os dois lados, direito e esquerdo. O pobre rapaz tentou levantar-se do chão, mas as dores que sentia no corpo o impediram. Rubão, o “careca” que acabara de chegar, quis saber o que estava acontecendo:
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Postado por Nelson Natalino em 02:30 AM

dezembro 28, 2003

O JUIZ

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Tinhoso o homem, me fazia perguntas descabidas. Olhei nos seus olhos e talvez tenha sido esse o meu pecado.
O vigor dos seus braços transmitiu-me a ira que ele sentia, e que eu nem mesmo entendia o porquê.
Era sabido que eu não era pouco mais que um adolescente. Mal saíra dos campinhos de futebol do Tucuruvi par estudar Direito no Largo São Francisco quando eles nos pegaram. Eu não tinha idéia do que estava acontecendo. Ainda estava sob os efeitos da comemoração do início da minha vida acadêmica.
Eu sempre fôra apolítico, não dando grande importância a homens, nem a causas.

Lúcio, sim. Era militante de esquerda fervoroso.
Sentara-se ao meu lado desde o primeiro dia de aula e travamos a partir daí uma amizade sincera. Ou quase, pois sinceridade da amizade terminava onde começava a segunda personagem da vida dupla de Lúcio. Ele nunca confiara a mim esse segredo.
Morávamos perto um do outro. Bairros circunvizinhos. De modo que no final das aulas, Lúcio me dava carona, todos os dias, no seu fusca azul turquesa. Ìamos invariavelmente ao som de Beatles, que rolava, a cada duas músicas das paradas de sucesso de qualquer rádio que se sintonizasse no dial. Falávamos de tudo, mulher, futebol (ele era são paulino e eu santista), comentávamos as aulas do dia, principalmente as de Direito Civil , mas nunca, veja bem, nunca falamos, nem uma vez sequer, de política.

Aquele dia ríamos muito, pois o professor de penal havia tropeçado e caído de boca no chão. Idoso, com os reflexos comprometidos, estatelara-se sem apelação. Muito embora não tivesse se machucado, a cena rendera assunto para o dia todo. Voltávamos para casa conversando, quando Lúcio olhando pelo retrovisor viu alguma coisa que o incomodou.
Eu nunca o vira nervoso daquela forma. Acelerou o carro e por mais que eu perguntasse, não dizia nada. Acelerava furiosamente. Me segurei. Olhei para trás e vi duas peruas Veraneio com homens com os braços para fora da janela, empunhando armas. Por fim nos alcançaram. Fecharam o fusquinha freando bruscamente na nossa frente. Homens com metralhadoras desceram das viaturas, apontado-nos as armas e gritando para que descecemos e deitássemos no chão.

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Postado por Nelson Natalino em 04:28 PM

janeiro 21, 2004

O GALINÁCIOCIDA

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Tão logo chegou à delegacia de policia, Marcelo foi chamado pelo delegado para prestar depoimento sobre o seu flagrante delito (Aurélio -[Do lat. delictu.] S. m. Flagrante delito. Delito (1) em cuja prática o agente é surpreendido) O delegado olhou com desdém para Marcelo, como se ele fosse um bandido qualquer. Depois limpando sob as unhas com o cortador de unhas, sem erguer os olhos disparou a pergunta: - Então sr. Marcelo, o sr. matou o galo do seu vizinho? Na sala alguns fotógrafos já haviam se posicionado, pois estavam ali à caça de furos de reportagens e fotos exclusivas. Ao ouvir a pergunta do delegado desistiram imediatamente de gastar inutilmente filme para fotografar o autor de transgressão tão banal.
Marcelo, sem notar o desinteresse dos papparazzi,de cabeça baixa, escondendo o rosto, respondeu em tom quase inaudível de vergonha:- Matei sim senhor...
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Postado por Nelson Natalino em 03:04 AM

FAZER O QUÊ?

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- Tonho...
- Hum?
- Tá druminu?
- Tô não... quero vadiá, não, mulé.
- Tomem queru não... tô só falano..

Silêncio.

- Tonho...
- Hum?
- Sei não...
- Diga, minha santa...
- Num mi veio. Acho que tô prenhe.

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Postado por Nelson Natalino em 03:35 AM

fevereiro 08, 2004

O CASAMENTO DE MARICOTA


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Xisto, o pai, tinha uma opinião formada sobre as filhas mulheres. Deviam ser criadas para o casamento. Enquanto sob a sua guarda, era imprescindível serem conduzidas e orientadas para essa finalidade. Assim fora com as outras filhas. Os estudos, a religião, as amizades, tudo deveria ser relegado a um segundo plano.

Beirando os sessenta, Xisto já casara as duas mais velhas. Sob a sua tutela, ainda restava a caçula. Chamada Mariana de pia batismal, desde pequena ganhou das irmãs o apelido carinhoso de Maricota, que carregou vida fora.

A menina debutara há dois anos.
A festa, pois houve sim uma grande festa, realizada nos salões aristocráticos da Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, extrapolou na ostentação, visando justamente atrair entre os presentes, selecionados a dedo, um pretendente que se encantasse com a menina e conquistasse o seu coração.
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Postado por Nelson Natalino em 04:29 AM

abril 04, 2004

OS PÁSSAROS

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Se você não teve esta curiosidade, alguém da sua familia já teve.
- Quantos pássaros foram utilizados no filme “OS PÁSSAROS” de Alfred Hitchcock ?
Pergunte ao papai ou ao vovô... à mamãe ou à vovó. Mas não sem antes saber a resposta certa.
Leia atentamente.
Esta foi, por uma extrema coincidência a mesma curiosidade que eu tive ao assistir pela primeira vez ao filme. Para obter a resposta, assisti mais oitenta e duas vezes o filme, contando pássaro a pássaro.
Resposta obtida: Continuar a ler "OS PÁSSAROS"
Postado por Nelson Natalino em 05:20 AM

junho 09, 2004

A JANELA

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Não basta apenas ser uma janela de uma folha com trinco único de correr , em ferro.
Há que ser caiada no mesmo vai e vem indolente das cerdas na parede de tijolos, sem que nem mesmo se perceba a abrupta mudança do material e do relevo caiado.

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Postado por Nelson Natalino em 02:10 PM

dezembro 27, 2004

PEDRO E ANA ELISA

Um belo dia, após sete anos de casamento, Pedro entrou alvoroçado pela sala, tropeçando em móveis, olhos esbugalhados, boca espumando e respiração ofegante.
olhos ass.jpgAna Elisa interrompeu o ponto de crochê e olhou assustada, pois nunca durante todo esse período, o marido protagonizara cena similar àquela que ocorria naquele momento.
É certo que nos últimos dois anos, dera para sair com os amigos e beber um pouco além da conta, mas nada que fosse anormal. O horário também se alterara com o passar do tempo. Como naquela noite, nunca chegava cedo em casa. Passava das 10, já.
Pedro, gravata torta, cabelo desgrenhado, encostou-se na parede, fixou os olhos na porta e não mais desviou de lá o olhar.
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Postado por Nelson Natalino em 09:18 PM

maio 02, 2005

UMA VERDADE COM TOM DE MENTIRA

festajunina.jpeg Se faz necessário que eu conte.
Passaram-se muitos e muitos anos com esta história martelando minha memória e poucos a sabê-la, pois a poucos nos atrevemos contá-la, receosos do escárnio que pudesse provocar.
Eu era pequeno.
Cinco ou seis anos quando tudo aconteceu. Morávamos em uma pequena vila de cinco casas, alinhadas à direita de um corredor, todo cimentado, um quintal comum a todas as casas. Três casas eram separadas das demais por degraus, ficando no fundo ao alto.
Nossa casa era a segunda ao meio, dividindo as casas de baixo das casas do alto. Era uma casa simples de quarto, sala cozinha e banheiro e uma área de serviço no lado de fora, com tanque e um telhado meia-água, onde se guardavam as tranqueiras.
Nossa família, então, contava com quatro pessoas. Minha mãe, meu pai, minha irmã e eu.
O fato se deu por ocasião do meu aniversário. Dia de Santo Antonio.
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Postado por Nelson Natalino em 08:41 PM






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